Outubro 22, 2020

Ziggy Stardust And The Spiders From Mars: The Motion Picture: “o único concerto”

Ir ao cinema como um evento único, como se fosse um concerto. A ideia recebe assim um interesse redobrado, ao fundir o evento cinema, com conteúdos e marcas. Essa é a proposta da CinEvents, com o documentário de culto Ziggy Stardust And The Spiders From Mars: The Motion Picture, previamente editado em álbum e em vídeo, e dirigido pelo consagrado documentarista musical D.A. Pennebaker (recordamos Don’t Look Back, de 1967, com o Bob Dylan ainda em início de carreira), aliado ao lançamento do livro do baterista Woody Woodmansey (My Life With Bowie: Spider From Mars), que foi um dos Spiders From Mars, e que lançou um livro sobre esse período que viveu com Bowie. Uma sessão que é patrocinado pela revista Mojo (será oferecida uma edição exclusiva sobre Bowie) e complementada pelo ‘extra’ da entrevista gravada pelo editor Phil Alexander. O dia é esta terça-feira, em diversas cidades britânicas e de vários países europeus. Infelizmente, não inclui Portugal. Ainda assim, tivemos acesso ao link da sessão pela Picturehouse para esta review.

O que temos então é o regresso a esse mítico concerto, a 3 de julho de 1973, no Hammersmith Odeon, em Londres, onde David Bowie haveria de proferir a chocantes declaração em palco anunciando aquele que seria “o último concerto que dariam”. Uma declaração que fazia, afinal de contas, parte do act de Bowie, concluindo assim a sua colaboração com os Spiders From Mars, que incluíam o exímio guitarrista Mick Ronson e o baixista Trevor Bolder, encerrando essa personagem andrógina de Ziggy Stardust, criado durante a promoção de Hunky Dory e que o absorvera durante um período esgotante incluindo as digressões americana e europeia do álbum que se tornaria no seu primeiro hit e que alteraria o rumo da sua carreira. Seguir-se-ia Alladin Sane, ainda nesse ano de 1973.
A entrevista a Woodmansey (de pouco mais de meia hora gravada a preto e branco) que antecede o concerto, é bastante elucidativa já que permite rever esse período através das declarações do seu baterista. Que começa mesmo por referir “o convite” que recebeu do próprio Bowie, a conselho de Mick Ronson, e que o festival ponderar no seu futuro, mas a possibilidade de concretizar o seu sonho rock and roll foi determinante para aceitar seguir para Hadden Hall, uma villa vitoriana, no sul de Inglaterra, onde Bowie vivia com a mulher Angie e que haveria de ser uma espécie de paraíso para o glam rock, onde haveriam de se alojar e preparar a gravação do disco nos Trident Studios. Por ali deambulariam Mark Bolan, Toni Visconti, mas também John Lennon, Syd Barrett, bem como homens de outras artes, como Stockhausen e Nabokov.
“As pessoas não sabiam muito bem o que haveriam de fazer com aquele com tão novo”, comenta Woodmansey a propósito dos temas iniciais do concerto, em que o público parecia ainda estar sob uma espécie de transe. Um espetáculo em que veremos também a presença de Ringo Starr, Marc Bolan e saberemos ainda pelo baterista que Mick Jagger também por ali andava.
No entanto, Woodmansey mostrou-se fascinado por esta figura que “conseguia escrever uma hit song em 20 minutos”. É essa persona que vemos ainda no camarim, a dar os derradeiros retoques de eyeliner e pinturas faciais para recriar o Ziggy prestes a assumir a sua derradeira performance. É o artista no pico da sua carreira que vemos num registo muito afetivo de Pennebaker que capta diversos momentos do álbum, como o mítico Five Years, que o baterista recorda a criação desse trabalho de bateria “para simbolizar o fim do mundo”, mas também Oh, You Pretty Things, o inevitável Space Oddity, Suffragette City ou a homenagem aos Stones, com Let’s Spend The Night Together, e a Lou Reed, com Whit Light, White Heat, para terminar com essa declaração fatalista que antecedia Rock ‘n’ Roll Suicide.
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