Outubro 18, 2019
insider

Edgar Pera: “Retratamos o vampirismo e egocentrismo dos media”

Não deixa de ser um pouco insólito o teu interesse por um tema tão popular como o Carnaval de Torres Vedras. Em todo o caso, gostaria de saber o que te motivou a avançar para este trabalho.

Tenho família na zona de Torres Vedras, talvez tudo tenha começado por aí… Mas em 2014, durante uma retrospectiva minha em Seoul, houve um espectador que achava que os meus filmes eram carnavalescos. Concordei que o lado excentricionista da minha obra podia ser interpretado como carnavalesco. Coincidência ou não, pouco tempo depois fui com o Nuno Melo apresentar um projecto de filme 3D sobre o Carnaval de Torres Vedras ao presidente da câmara de Torres.

Com que apoios contaste para este filme?

Tanto a Câmara Municipal como a Promotorrunes (que organiza o Carnaval) mostraram-se entusiásticos e apoiaram o filme. De resto, Delírio em Las Vedras foi recusado em todos os concursos do ICA, pelo que é uma produção independente (à força), que resulta do meu investimento pessoal e da produtora Bando à Parte, para além do envolvimento e apoio de toda a equipa técnica e sobretudo dos actores.  .

Agradou-me particularmente a ideia de introduzires um segundo carnaval dentro do original, ou seja, o carnaval dos repórteres de televisão e assim abrir o espaço de ficção no aspeto documental. Foi uma ideia intencional a paródia aos tiques da imprensa televisiva e radiofónica?

O ponto de partida foi desde o início introduzir o elemento mediático, que me pareceu a forma mais natural de abordar este fenómeno. Apesar da ideia inicial ser apenas a de a rivalidade entre dois canais televisivos, um do Nuno Melo outro da Marina Albuquerque, acabámos por filmar com uma dúzia e meia de actores de 7 canais diferentes. Cada um tinha um perfil definido, do punk ao zoológico, do generalista ao tele-shoping, houve de tudo um pouco. As personagens foram construídas com os actores e procurámos explorar o lado caricatural dos canais. E acrescentámos a Rádio Carnaval do Valdemar do Amaral interpretada pelo Jorge Prendas, que se tornou o grilo incontinente e o auto das músicas deste Delírio em Las Vedras. Aliás a banda sonora é o que há de mais ficcional no filme, porque quis substituir a música brasileira por música original mantendo apenas as batucadas dos Bombos de Amarante.

Naturalmente, ao vermos o filme percebemos como a ideia do 3D funciona bastante bem. Foi também essa uma motivação? O 3D continua a ser uma veia de inspiração para fazer cinema?

Há 6 anos que filmo numa base quotidiana em 3D, pelo que terei sempre muitos filmes esteroscópicos na carteira, sendo que o próximo é Fora de Órbita, a continuação de O Espectador Espantado. O 3D permite esculpir no espaço e ao mesmo tempo criar fronteiras dimensionais entre os elementos de um plano. Mas pretendo fazer agora uma descontaminação tridimensional em breve e vou abraçar de novo a bidimensionalidade no próximo projecto de longa-metragem.

E com a ideia de cinema introduzo a questão seguinte: quando um anónimo pergunta no filme “para que televisão é” e a voz (a tua?) responde “porque TV e não o cinema?” Foi sempre esse olhar, o do cinema, que te motivou?

Sim é a minha voz, aliás ouve-se no filme de tempos a tempos eu a comunicar com os actores ou com a equipa. Claro que a ideia de filmar para ver num grande ecrã sempre me atraiu. Mas talvez mais importante do que o tamanho da imagem seja a intenção com que se faz um filme, o impulso estético que comanda esse gesto.

Gosto ainda da ideia de vampirizar o próprio carnaval, com o fim do entrudo, quando a máscara cai… Ainda sobre a narrativa dos elementos televisivos. Nesse aspeto imagino que não tenhas tido muita dificuldade em desenhar as diversas personagens do filme. Não faltasse exemplos… Mas o que te motivou?

Não sinto que tenhamos vampirizado oi carnaval antes pelo contrário, fomos totalmente absorvidos pelos seu espírito. Fomos sim, retratar o vampirismo e egocentrismo dos media. Fomos parte integrante do carnaval de Torres Vedras e as imagens que captámos mostram até que ponto é indissociável a ficção da realidade. No festival de Roterdão por exemplo, os espectadores não se deram conta que o filme tinha actores à excepção do Nuno Melo e poucos mais. Para estes espectadores Delírio em Las Vedras é um documentário.

Temos de falar do Nuno Melo. Está avassalador (como sempre) neste filme a compor o ‘boneco’ do repórter sério. Percebe-se que o Nuno teria uma certa liberdade de composição. Foi assim? 

O Nuno colocou muito da sua angústia e frustração pela forma como estava a ser tratado. Estava sem trabalho há muito tempo, com dificuldades extremas de sobrevivência e sentia-se revoltado. Deixei que ele colocasse toda essa revolta no filme e existem momentos em que ele consegue fazer-nos rir da sua desgraça: quanto mais frustrado ele parece, mais cómico se tornava. Foi um grande salto de O Barão até ao Delírio e isso revela como ele era um actor de múltiplas facetas, com uma energia inesgotável.

Sentiste também que se trataria para ele de uma possível despedida? 

Não. O Nuno só soube pouco depois da sua situação.

O trocadilho com Delirio em Las Vegas não me parece apenas usada para servir esse propósito. É também a afirmação e a vontade de fazer cinema?

O título do filme foi inspirado tanto pelos diálogos espontâneos dos actores durante os sete dias de rodagem como pelo título português de Fear And Loathing In Las Vegas do Terry Gilliam, que é um autor que admiro, desde o seu tempo nos Monty Python.

Não queria deixar de falar do ciclo sobre o teu cinema e da exposição em Torres. Parece-me uma ótima iniciativa. Irá ser mostrada também em Lisboa? 

Não faço ideia. A ver vamos se haverá mais interessados. A retrospectiva de Serralves foi uma ideia do seu curador António Preto e depois a Câmara de Torres Vedras manifestou o interesse em levar a exposição documental e o ciclo para Torres. Aquilo que mais atrai nessa exposição é o facto de para além dos filmes, incluir quase todo o tipo de actividades: os meus textos e imagens para O Independente e a revista K, textos para  a rádio, cadernos ilustrados, BD’s, cine-diários e instalações, etc etc…

Por fim, uma última palavrinha sobre Caminhos Magnéticos.

 Caminhos Magnéticos é mais uma adaptação de Branquinho da Fonseca e é a terceira longa-metragem, em 32 anos, que farei com um orçamento minimamente decente. Começamos a rodar em Abril com um elenco internacional. Contarei por exemplo com o Ney Matogrosso e a Helena Ignez e o protagonista é um reputado actor francês…  

Sobre Paulo Portugal 798 artigos
Insider Cinema, festivais, entrevistas e críticas. E algo mais.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*


Google Analytics