Agosto 23, 2019
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Berlim: Django – festival abre ao ritmo do jazz cigano

Não seria a primeira vez em que um cineasta ao abraçar um filme de contorno biográfico sobre um artista, seja ele qual for, pesasse o valor da obra e peso da sua arte para assim corresponder a um registo mais apetecível da figura em causa. No caso de Etienne Comar percebe-se que a sua experiência de produtor se terá sobreposto nesta sua estreia atrás das câmaras, ao devolver um filme bem composto sobre o mais famoso guitarrista de jazz, o francês descendente de ciganos Django Reinhardt. É pena que não tenha ido mais além porque Django até merecia um maior rasgo.

Apesar de focar o período em que o músico procura fugir à mão de ferro do sistema nazi que dominava na França ocupada, Comar não consegue mais do que um drama competente e descritivo, ainda assim dominado com notada segurança por Reda Kateb, o francês de descendência argelina, que ainda há pouco tempo vimos no novo de Wim Wenders, Os Belos Dias de Aranjuez.

Em todo o caso, não deixa de ser acertada a escolha de Djando pela equipa de Dieter Kosslick para a abertura da 67ª edição da Berlinale, com um filme que evoca precisamente a perseguição a que foi alvo a comunidade cigana e em grande parte enviada para campos de concentração. De resto, uma opção de programação que parece espelhar bem o perfil desta edição, visivelmente mais comprometida com os temas quentes que nos preocupam neste início de ano turbulento, ainda sem perceber muito bem o que fazer com esta herança de Donald Trump. Da mesma forma, mesmo sem confirmar se foi intencional, verifica-se a sentida ausência de estrelas de Hollywood para animar a passadeira vermelha. Na verdade, não nos lembramos sequer de um ano em que esse vinco é tão forte. O que pode até significar um festival de causas e temas, o que é bastante bem-vindo. Sobretudo se for acompanhada pela qualidade dos filmes.

Estamos em 1943, com uma França ocupada que procura levantar a cabeça. Ao menos, em Paris as plateias agitavam-se com o fulgor da guitarra endiabrada de Reinhardt e do violino de Stéphane Grappelli incendiando os clubes noturnos com o seu jazz cigano. Ele que estava seguro que a sua fama o protegeria dessa perseguição. Para isso, acabaria por aceitar tocar de acordo com as regras da propaganda, para assim se manter uma certa ‘pureza artística’. Por isso mesmo Django teria de “evitar os ‘alegros’ e os ‘prestos’” para embarcar no ‘convite’ para uma digressão alemã, como forma de diminuir a influência da música negra que ecoava do outro lado do Atlântico. Isto apesar de na sua mente estar a possibilidade de embarcar numa jornada para atravessar o Lago Genéve em direção à Suíça.

Para além da prestação rigorosa de Kateb, se bem que talvez sem o carisma devido, há que contar ainda a presença de alguns elementos femininos que poderiam ter sofrido um maior desenvolvimento, como o proto romance com a francesa Louise de Klerk (Cécile de France) que mantinha laços com os ocupantes, procurando explorar uma incipiente ligação com o artista e um acrescido dilema com a sua mulher Naguine (a estreante húngara Bea Palya), ou atá mesmo a presença marcante de Négros, a mãe de Django, a conferir uma inesperada densidade.

Mesmo com este foco no dilema do artista em manter-se fiel à sua música e não a deixar à mercê de conveniências políticas, algo se perde nesse dilema, acabando por nunca se sobrepor ao evidente vigor musical de Django Reinhardt, esse sim com o verdadeiro protagonismo no filme.

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