Outubro 26, 2020

O.J.: Made in America: a ascensão e queda de um anjo negro

“I’m not black, I’m OJ!”  

É a voz de O.J. que escutamos logo no início desta longa viagem de 7h47 minutos a dizer que desde cedo a coisa que mais queria, não era o dinheiro, era ser famoso. Queria ser conhecido! Queria que dissessem: hey, ali vai o O.J.! Daí, o documentário de Ezra Edelman avança para a evolução do promissor jogador de futebol americano saído do bairro social de San Francisco até encontrar a fama que desejava. Ele privou com as estrelas da altura, afirmou-se como atleta negro e transcendeu mesmo a cor da sua pele. Aliás, foi ele mesmo quem disse: “I’m not black, i’m OJ!” Mas ficaria também famoso pela acusação de assassínio da sua mulher Nicole Simpson e do sensacional ‘Julgamento do Século’ televisionado como se fosse uma telenovela. Razões mais do que suficientes para encarar estas quase oito horas como um fantástico mergulho na América de segregação.

Parte-se então da ascensão deste negro desportista que à medida que ganha estatuto de estrela se afasta cada vez mais das suas origens humildes. É um O.J. que priva com o jet set do showbiz, aquele que casou com uma loira que servir num bar chique da cidade, mas que também foi acumulando queixas de violência doméstica com agressões a Nicole Simpson. Até que depois do desiderato do longo e mediático julgamento, televisionado em todo o mundo, e que teve muito de fundo racial, O.J. acaba rejeitado pela sociedade a que chegou a pertencer e torna-se mais negro.

Onde este assombroso documento de Edelman se afirma é na forma como coloca uma nova luz nesse processo, ao abranger as particulares condições na época em que a cultura de celebridade sublimou o preconceito racial, tal como a cegueira social em redor do caso O.J. acabou por funcionar como uma forma de espetacular e paradoxal vingança histórica. Razão pela qual estas quase oito horas nos proporcionam uma incomparável viagem a esse tempo, ao mesmo tempos que nos permitem compreender essas raízes do fascínio pela fama.

Recordar agora, mais de vinte anos depois, aquele que é considerado como o “maior furo noticioso de sempre” assume pelo menos o valor acessório de evocar esse julgamento à luz dos direitos sociais, pois como muitos recordarão, a cor da pele acabou por se impor ao juízo dos atos praticados. É também por aí que segue este completíssimo e ambicioso documento, sugerido pela estação ESPN ao afro-americano Ezra Edelmen. Ele que teve a visão de não enveredar pelo lado mais banal e histórico, mas optando antes por auscultar e acompanhar a vibrante luta social que decorria em LA desde o caso Rodney King, em que os agentes da LAPD foram ilibados das violentas agressões captadas em vídeo e que incendiaram a cidade em 1991. De resto, essa sombra acabaria por pesar mesmo no veredicto do julgamento. É, de resto, por trazer luz a essa dimensão de luta racial que este se torna um projeto ainda mais ousado, e que não desmerece mesmo depois da série American Crime Story: The People vs. O.J. Simpson.

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