Outubro 29, 2020

A força do cinema negro: e se, de repente, tivéssemos os ‘all black’ Oscars?

Entre o mainstream, o cinema autor e… aquele que ficou de fora

 

O que existirá em comum entre Elementos Secretos, Moonlight ou O Nascimento de uma Nação? Talvez o facto de serem filmes dominados por temas raciais e por uma significativa presença afro americana. Mas é também o lado mais visível da edição deste ano dos Óscares. Isto apesar de um deles ter sido afogado à nascença… Para além disso, haverá que contar também com os favoritos no campo documental: I Am Not Your Negro e O.J.: Made in America. E se, de repente, tivéssemos o pleno de all black Oscars

O Nascimento de uma Nação, 2016

Algo se passou após as recentes cerimónias dos Óscares – tão lavadinhas e alvas que foram! -, ignorando na ribalta e na foto de família intérpretes e cineastas não caucasianos. Mas como não há fome que não dê em fartura, eis que este ano se emenda a mão com uma pequena avalanche de narrativas do cinema negro com um foco particular no historial americano de segregação e ofensa aos direitos humanos. Não será este um sinal dos tempos, em que o Mundo se torna cada vez mais ambíguo e parcial? Entre a ficção, a realidade e as histórias baseadas em factos verídicos um incontornável punhado de filmes quer deixar a sua marca no ano de todos os perigos. É também o peso e a ferida do passado a dar os seus melhores frutos numa resposta à altura dos #OscarsSoWhite. E são tantos os casos, meu deus!

Elementos Secretos

Desde logo, o intimo Moonlight e o mainstream Elementos Secretos, com o primeiro a segurar nomeações para oito Óscares, incluindo Melhor Filme, Realizador e atores, e o segundo com três nomeações incluindo também Melhor Filme. E poderia até (deveria!) incluir-se nesta lista A Birth of a Nation, o tal épico sobre a escravatura e revolta afogado à nascença, depois da passagem sensacional pelos festivais de Sundance e Toronto, mas logo afectado pelos ecos de uma acusação de violação, ocorrida há dezassete anos, que se abateu sobre o protagonista e realizador Nate Parker. Um filme que chegou a ser, na altura, o principal candidatos aos Óscares, talvez a proximidade com Doze Anos Escravo e Django Libertado. Ainda assim, não deixa de ser aquele que ficou de fora. Mas tem de ser visto.

Moonlight

No entanto, há que contar ainda com outros fortes candidatos a estatuetas e até de valor igual aos citados. Desde logo, o consistente e teatral Vedações, assinado e interpretado por Denzel Washington, forte candidato a Melhor Ator, bem como Loving, um filme de amor inter-racial de Jeff Nichols, com Ruth Negga a assumir-se também como potencial candidata a Melhor Atriz. E temos ainda dois documentários relevantíssimos candidatos aos respetivos Óscares – I Am Not Your Negro, de Raoul Peck, sobre o negro que colocou o dedo na ferida e esse épico de quase oito horas O.J.: Made in America, de Ezra Edelman, sobre o negro O. J. Simpson que gostava mais de ser branco.

O.J.: Made in America

All black Oscars?

Bem-vistas as coias, não seria sequer descabido pensar num pack all black de Óscares. Assim antecipamos uma festa em que Denzel e Ruth Negga (Loving), assumiriam o papel de mestres de cerimónia, com os respetivos Óscares de interpretação. Mas, bem vistas as coisas, não serão até eles mesmo os favoritos, já que não nos parece que o parzinho caucasiano de La La Land tenha alguma possibilidade, mesmo do alto das suas 14 nomeações. Seria uma escolha desacertada num ano certo para ‘limpar’ os preconceitos. Sendo que na categoria secundária Mahershala Ali, imponente em Moonlight – ou mesmo Dev Patel, gigante em Lion – A Longa Estrada Para Casa e Viola Davis, essa torre de talento, num papel igualmente pouco secundário. Sonhamos? Talvez. Embora, como se sabe, são tantas as escolhas mais baseadas no tradicional hype americano, onde a crítica cumpre o seu papel ao criar os seus ‘santinhos’. E para que a festa fosse perfeita, Moonlight poderia fazer surpresa e sobrepor-se a La La Land… Aí a música seria outra.

 

Moonlight

Nomeado para 8 categorias, incluindo o Melhor Film, Moonlight, de Barry Jenkins, consegue afirmar-se para além daquilo que seria esperado para um all black movie. Depois de explorar as nuances de um one night stand nas ruas de San Francisco, em Medicine for Melancholy, numa cidade com apenas 7% de negros, Jenkins supera a fotografia baça pela força dos tons azulados de Moonlight estabilizando-se na história do jovem carente Chiron, interpretado por três atores diferentes e de acordo com a estrutura de fases ou etapas de vida, de acordo com a adaptação livre da peça de Tarell Alvin CcCraney In Moonlight Black Boys Look Blue. Ele que é acolhido por um dealer de crack com bom coração (Mahershala Ali, nomeado ao Óscar secundário), acabando mesmo por substituir a ausência da figura paternal, evoluindo para uma adolescência marcada por bullying e falta de autoconfiança, até que o destino o empurra para a afirmação com dealer, emulando o seu mentor. Pelo meio, Chiron lida com a deriva da mãe dependente (Naomi Harris, também nomeada), bem como do seu único amigo Kevin, o único com quem manteve um momento de intimidade.

Mais do que uma narrativa de temática gay, Moonlight recolhe mais interesse no cerco de violência social e geração em redor do qual um jovem negro não consegue afirmar a sua identidade. Um retrato cuidado que Jenkins trata com humanidade deixando que os silêncios, a música e os ambientes cromáticos falem por si, um pouco como Wong Kar Wai, em In the Mood for Love. Sim, há aqui um lado autoral que se saúda.

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Elementos Secretos

Elementos Secretos, de Theodore Melfi, acabado de estrear em Portugal, até pode ser o elo mais fraco deste conjunto, já que se limita navegar num registo mainstream ao mesmo tempo que evoca, em estilo ligeiro, o papel de uma equipa de mulheres afro-americanas que é apresentada como a espinha dorsal do sucesso da missão da NASA que levou o astronauta John Glenn ao espaço. Pena é perceber que foram necessários alguns retoques narrativos para empurrar uma realidade dos anos 50 adaptando-os para a corrida espacial vivida entre os EUA e a URSS no início dos anos 60. Evoca-se em particular um trio de mulheres, a matemática Katherine Johnson (Taraji P. Henson), a coordenadora Dorothy Vaughan (Octavia Spencer, nomeada ao Óscar secundário) e a engenheira Mary Jackson (Janelle Monae). A bem dizer não há aqui nada de novo, num filme que explora de uma forma algo forçada alguns elementos de segregação e apresenta a matemática Katherine numa espécie de génio sobrenatural ao lado de um grupo de homens brancos incompetentes, quase em caricatura, suportados por um Kevin Costner e Jim Parsons (o wizz kid de A Teoria do Bing Bang) em registo submisso. Apesar do interesse e relevância em recuperar a homenagem ao trabalho desenvolvido por esse grupo de mulheres, a forma algo aligeirada, forçada mesmo, acaba por assumir um lado de panfleto pouco credível.

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O Nascimento de uma Nação

Depois de conquistar o ano passado em Sundance o prémio do Público, bem como o Grande Prémio, os dois mais prestigiados galardões, eis que uma nuvem de suspeição acabou por tolher o enorme potencial que esta monumental estreia do produtor, realizador, argumentista e protagonista Nate Parker ao ficcionar a história do escravo Nat Turner (em parceria com Jean McGianni Celestin, cuja herança quase crística o levou à revolta em 1831 contra a barbárie da escravatura americana. Até com a ousadia de usar com bravura o título do épico controverso, de 1915, do David W. Griffith, certamente com a intenção de corrigir os seus elementos racistas e pela forma como celebra a criação do Ku Klux Klan. De resto, em plena euforia o filme fora até adquirido pela Fox Searchlight, igualmente detentora dos direitos de 12 Anos Escravo. Tudo fazia sentido.

Só que em vez de se afirmar como um dos principais candidatos aos Óscares deste ano, e logo com um filme destinado a superar essa ausência afro americana nos Óscares, o percurso de O Nascimento de Uma Nação é abalado pelas acusações a que foram alvo Parker e do seu colega Celestin pela violação de uma jovem em 1999. Apesar de Parker ter sido absolvido, ainda que não Celestin, a morte da jovem por suicídio dois anos mais tarde, acabou por gerar um desconforto que acabou por afogar à nascença as pretensões do filme. A consequência foi o falhanço na estreia americana que mal deu para fazer o break even dos 8,5 milhões de orçamento.

Bem mais complexo que 12 Anos Escravo, assente no destino de um homem livre que é vendido como escravo, O Nascimento de Uma Nação abrange a história mais complexa de um escravo que aprende a ler, acaba por pregar o cristianismo aos outros escravos, mas acaba por lhes incutir também o desejo de revolta que acontece em 1831. É aí que Parker toca uma nota diferente ao colocar também a violência durante esse curtíssimo período em que os negros levaram a barbárie aos brancos. Enfim, quase como uma revisitação da revolta ocorrida em 1991 após a tão publicitada violência sobre Rodney King que gerou uma onda de tumultos em Los Angeles. Independentemente das circunstâncias que ensombram este projecto, é um filme muito relevante e atual. Em particular, numa altura em que a supremacia branca e a intolerância dão sinais de estar bem vivas.

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Vedações

A adaptação do premiado romance de August Wilson, a evocar o passado de carência de direitos civis pela comunidade afro-americana, assente num all black cast em que Denzel Washington acumula o protagonismo e realização, permite uma entrega de fôlego interpretativo e composição que assenta bem nesta época de prémios. Washington que se assume até como um dos candidatos mais fortes a ganhar o Óscar pela melhor interpretação, a que juntaria aos dois prémios secundários conseguidos em Tempo de Glória, de 1990, e Dia de Treino, em 2001.

De resto, é um Denzel que nos dá o melhor de si no papel do homem marcado pelo pela amargura do passado de segregação e a incapacidade de superar a mágoa de ex-jogador de beisebol que passou ao lado da merecida afirmação. Mas não esqueçamos por um momento sequer essa portentosa atriz que é Viola Davis que faz crescer todas as personagens que interpreta. Enorme no papel da mulher submissa, mas guerreira, que se vê forçada a assumir a mais dura provação, cuidar da filha ilegítima do marido.

Está por isso mesmo, e com toda a justiça, nomeada de novo (depois de As Serviçais, em 2012, e Dúvida, em 2008). Poderá também ser este o seu ano. Ela que tem a seu lado a companhia afro de Naomi Harris (Moonlight) e Octavia Spencer (Elementos Secretos), a conferir pigmento à palidez loira de Nicole Kidman (Lion) e Michelle Williams (Manchester by the Sea).

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Loving

Quando um casal é surpreendido na cama pela policia que questiona a proibição do casamento de um branco com uma mulher negra, revivemos também um pouco esse período inenarrável da história americana no inicio dos anos 60. Mesmo sem ser um filme de exceção, trata e evoca um o tema do casamento inter-racial, quando era ainda proibido, com força de lei.

Em Loving, o branquinho Jeff Nichols concorreu à última Palma de Ouro de Cannes, afirmando a negra Ruth Negga numa real prestação. Apesar de baseada em factos reais, no caso de Mildred Loving, a mulher negra que aceita ser exemplo ao casar-se com um branco loiro (enorme Joel Edgerton, uma pena não ter sido nomeado também), em pleno terreno red neck de Virginia, onde esse casamento era considerado um crime, levando mesmo por levar a sua causa ao Supremo Tribunal americano.

Negga é enorme na inocência dos seus olhos enormes e deveria ter ganho em Cannes (em vez dela ganhou a filipina Jacklyn Rose, por Ma’Rosa). Está agora ao lado do reconhecimento crescente do papel de Isabelle Huppert, em Elle, Emma Stone, de La la Land, e Natalie Portman no biópico do costume ou até da incontornável Meryl Streep. Fazer história seria dar-lhe o Óscar. Tirando Huppert, o resto é déjà vu. Mesmo que se trate de um filme temático a recordar o inimaginável que aconteceu, Loving tem, pelo menos, o mérito de colocar o dedo na ferida aberta e trazer para a discussão a ignominia racial. Por cá, o filme ainda não tem data de estreia. Esperemos apenas que Ruth não leve uma nega….

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Documentários de raça que merecem Óscares

O.J.: Made in America

“I’m not black, I’m OJ!”  

É a voz de O.J. que escutamos logo no início desta longa viagem de 7h47 minutos a dizer que desde cedo a coisa que mais queria, não era o dinheiro, era ser famoso. Queria ser conhecido! Queria que dissessem: hey, ali vai o O.J.! Daí, o documentário de Ezra Edelman avança para a evolução do promissor jogador de futebol americano saído do bairro social de San Francisco até encontrar a fama que desejava. Ele privou com as estrelas da altura, afirmou-se como atleta negro e transcendeu mesmo a cor da sua pele. Aliás, foi ele mesmo quem disse: “I’m not black, i’m OJ!” Mas ficaria também famoso pela acusação de assassínio da sua mulher Nicole Simpson e do sensacional ‘Julgamento do Século’ televisionado como se fosse uma telenovela. Razões mais do que suficientes para encarar estas quase oito horas como um fantástico mergulho na América de segregação.

Parte-se então da ascensão deste negro desportista que à medida que ganha estatuto de estrela se afasta cada vez mais das suas origens humildes. É um O.J. que priva com o jet set do showbiz, aquele que casou com uma loira que servir num bar chique da cidade, mas que também foi acumulando queixas de violência doméstica com agressões a Nicole Simpson. Até que depois do desiderato do longo e mediático julgamento, televisionado em todo o mundo, e que teve muito de fundo racial, O.J. acaba rejeitado pela sociedade a que chegou a pertencer e torna-se mais negro.

Onde este assombroso documento de Edelman se afirma é na forma como coloca uma nova luz nesse processo, ao abranger as particulares condições na época em que a cultura de celebridade sublimou o preconceito racial, tal como a cegueira social em redor do caso O.J. acabou por funcionar como uma forma de espetacular e paradoxal vingança histórica. Razão pela qual estas quase oito horas nos proporcionam uma incomparável viagem a esse tempo, ao mesmo tempos que nos permitem compreender essas raízes do fascínio pela fama.

Recordar agora, mais de vinte anos depois, aquele que é considerado como o “maior furo noticioso de sempre” assume pelo menos o valor acessório de evocar esse julgamento à luz dos direitos sociais, pois como muitos recordarão, a cor da pele acabou por se impor ao juízo dos atos praticados. É também por aí que segue este completíssimo e ambicioso documento, sugerido pela estação ESPN ao afro-americano Ezra Edelmen. Ele que teve a visão de não enveredar pelo lado mais banal e histórico, mas optando antes por auscultar e acompanhar a vibrante luta social que decorria em LA desde o caso Rodney King, em que os agentes da LAPD foram ilibados das violentas agressões captadas em vídeo e que incendiaram a cidade em 1991. De resto, essa sombra acabaria por pesar mesmo no veredicto do julgamento. É, de resto, por trazer luz a essa dimensão de luta racial que este se torna um projeto ainda mais ousado, e que não desmerece mesmo depois da série American Crime Story: The People vs. O.J. Simpson.

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I Am Not Your Negro

A história dos negros na América é a história da América, diz James Baldwin, o ativista que sabia dizer as verdades dos negros nos olhos dos brancos. Infelizmente, este é também o seu inacabado projeto sobre direitos civis, já que Baldwin morreu em 1987. Na sua génese estão três amigos que morreram assassinados pela causa: Medgar Ever, Malcolm X e Martin Luther King.

É agora a voz de Samuel L. Jackson que o trás à vida, ao reproduzindo as suas palavras, reconstituindo o retrato deste homem e a sua luta contra toda uma Nação com as mãos ensanguentadas. Raoul Peck, antigo ministro da cultura do Haiti, tornou-se realizador em boa hora. O resultado que iremos conferir em breve no festival de Berlim.

 

 

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