Outubro 30, 2020

A Longa Viagem para Casa: drama familiar com escala nos Óscares

Nem todas as histórias baseadas em factos reais têm necessariamente de corresponder aos clichés do género. Seja para acentuar o inevitável aspeto emocional destinado a fazer chorar as pedrinhas da calçada ou, por outro lado, adornar o ramalhete pela inclusão de estrelas de renome. Ainda que Lion (A Longa Viagem Para Casa, na versão portuguesa) a aflorar o destino de um menino indiano perdido em Khandwa que acaba por ir parar às ruas de Calcutá, a mais de 1600 kms de casa, demorando mais de duas décadas para encontrar os pais, até navega sob essa bandeira. Felizmente, transforma-se num dos filmes mais intensos e emotivos do ano, apresentando-se na calha de uma pré-consideração para os Óscares.

A verdade é que, à partida, essa conjugação de elementos não agoirava o melhor. Desde logo, a origem melodramática do tema, reforçada pela entrega do projeto a um estreante vindo da publicidade e cedendo até à presença de uma mega-estrela como a australiana Nicole Kidman, aqui ao lado do londrino Dev Patel, embora de ascendência indiana, a afirmar-se como um valor a ter em conta para o futuro. Por isso mesmo, saudamos a surpresa ao constatar que nada se passa como o eventualmente esperado. O resultado acaba até por ser uma experiência intensa, vivida com o pulmão algo apertado e os olhos a doer de emoção.

A primeira parte do filme decorre integralmente na India, em tom profundamente realista, e integralmente falado em dois dialetos indianos, o bengali e o hindu. Aqui conhecemos o pequeno Saroo, numa brilhante composição de Sunny Pawar, ao encher o ecrã de energia e talento natural na sua deambulação pelas ruas para encontrar alimento, assim o vemos na companhia do irmão Guddu (Abhishek Bharate) , e depois, já perdido, ao adormecer numa carruagem de comboio que o levará a mais de 1500 quilómetros de casa, depois a um orfanato e, finalmente, à adoção por um casal na Tasmânia (Nicole Kidman e David Wenham, o Faramir de O Senhor dos Anéis).

De forma inteligente, o realizador Garth Davis, que veio do design e da publicidade, até consegue calcorrear entre a fina linha entre o melodrama piegas e uma história bem contada, optando sabiamente pela segunda via. Mesmo recorrendo à vulnerável e sempre intensa Nicole Kidman, que não destila um milímetro sequer de overacting. Ainda que o filme pertença a Dev Patel, a versão adulta de Saroo Brierly, também o autor do livro em que se inspira o filme, a meias com a prestação do incrível Sunny Pawar.

É já com Saroo adulto, por volta do início do séc XXI, que o filme entra numa velocidade diferente, partilhando um ambiente mais familiar, já com uma namorada americana (Rooney Mara) e um estilo mais convencional. É com a descoberta do Google Maps que encurta à distância de um clique a navegação próxima da região onde morara em criança e, consequentemente, o desejo se saber o que sucedeu ao seu irmão e família, mas também a saber algo mais sobre si próprio.

É claro que tudo isto poderia correr bastante mal, mas não. Daí o tal frémito no peito num final arrebatador em que muitos na sala de projeção cederam à comoção. Aqui o mérito vai direitinho para o acerto do guião adaptado por Luke Davies (autor do avassalador Candy, com Heath Ledger e Abbie Cornish), mas também para uma rigorosíssima direção de atores. Até aqui tudo bem. Razão pela qual talvez não fosse necessário acentuar ainda mais a intensidade com um score musical destinado a um final enxugado a kleenex e ao apelo das organizações humanitárias.

 

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