Dezembro 13, 2019
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Eu, Daniel Blake: Regressa o cinema proletário de Ken Loach e merece Palmas!

Ken Loach será porventura um dos cineastas mais coerentes e leais a um certo cinema de índole proletária e manifestamente realista. Manteve mesmo o seu curso, quando abriu espaço a um lado mais ligeiro de O Meu Amigo Eric, convocando a persona do futebolista Eric Cantona para justificar o anseio de um carteiro na mó debaixo, ou abriu inesperadas perspectivas a um pai inexperiente através do contacto com uma destilaria de whisky, em A Parte dos Anjos. E consistente tem sido a sua participação no festival de Cannes, onde concorreu por 13 vezes à Palma de Ouro, inscrevendo-se no lote restrito dos cineastas que venceram pela segunda vez. O que sucedeu este ano com Eu, Daniel Blake. Algo que não deixa de ser paradoxal, quando Loach anunciara, há dois anos, durante as entrevistas de promoção de O Salão de Jimmy, que se iria reformar. E como é bom perceber que  Eu, Daniel Blake se afirma com um dos seus filmes onde essa tal coerência assume um valor ainda mais alto. Palmas, portanto.

É nesta altura que se impõe referir a estreia oportuna do documentário Versus: A Vida e os Filmes de Ken Loach, da documentarista britânica Louise Osmond, ao percorrer e centrar toda a sua carreira num universo fortemente politizado, mas sem nunca deixar órfão o cinema, ao mesmo tempo que acompanha a rodagem deste projeto que agora chega às salas. Verdadeiramente, um filme irmão para ver em conjunto com Eu, Daniel Blake.

Ainda esta ano, uma vez mais em Cannes, Loach haveria de referir que lhe bastou apenas uma semana sem nada para fazer nada para perceber que teria de regressar à ação. E que regresso! No mais puro cinema realista, na linha de O Meu Nome é Joe (1998) e Ladybird, Ladybird (1994), acompanhando a jornada de um homem em missão kafkiana contra as regrazinhas do burocrático e cego sistema de saúde britânico.

Por mero acaso, Daniel conhece Katie (Hayley Squires), uma desesperada mãe solteira, acabada de chegar de Londres a Newcastle, num serviço de apoio acompanhada pelos seus filhos, onde iria receber um espaço para morar, depois de não poder suportar mais viver no quarto de uma pousada. Ambos acabam por reconhecer-se nessa revolta contra o sistema. O que podemos esperar? Lágrimas e suspiros? O octogenário realizador prefere o tradicional espírito afável britânico, aquele que tempera mágoas com um sorriso e uma chávena de chá. Parte do mérito da Palma de Ouro estará, porventura, nesta opção se tratar o drama social profundo, com um registo de leveza, quase a roçar a comédia.

Loach aponta o dedo ao sistema de saúde britânico e às políticas de cosmética para disfarçar a sua inconsequência social. De resto, o filme principia com uma cena em off, ainda durante o genérico, em que o Daniel do título (Dave Johns, uma verdadeira descoberta) responde às questões formais de uma impassível ‘profissional de saúde’ de Newcastle para apurar as condições de adesão ao programa de benefícios de saúde. Se bem que certas perguntas resvalem para o insólito, por exemplo, quando pretendem saber, por exemplo, se Daniel consegue colocar um chapéu na cabeça…

Ao ser-lhe negado o benefício social, não lhe resta candidatar-se a um programa de emprego – isto, recorde-se, apesar de não poder trabalhar. Mas é o processo a seguir, dizem-lhe. Pois seguem-se os questionários online, via telefone, as salas de espera, com a agravante de ter de lidar, sem qualquer ajuda, com os novos desafios dos computadores.

Acertada a escolha de Dave Johns, experiente em stand up commedy, a conferir ao filme o adequado estilo ligeiro, mesmo quando trata do lado mais duro da vida. De tal forma que somos apanhados desprevenidos quando Katie cede à fome num banco alimentar. Mas acaba por ser na tremenda verdade das pessoas, o tal realismo afável e nada fabricado, que mergulhamos no lado mais proletário deste filme assumido.

Como sempre, é na verdade das personagens, na sua simplicidade, que nos comove e se converte em grande cinema nas mãos desta equipa que funciona como uma verdadeira família há mais de uma dezena de filmes – o argumentista Paul Laverty, a produtora Rebecca O’Brien e diretor de fotografia Robbie Ryan. Pois é, somos Daniel Blake!

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