Outubro 30, 2020

Tower remete-nos para o terror do sniper que há 50 anos matou 16 pessoas 

 

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Raras vezes o cinema combinou tão bem a imagem real com a animação, criando um documento repleto de significado, emoção e fascinante resultado estético. No caso, a reconstituição do massacre ocorrido a 1 de agosto de 1966, quando o atirador furtivo Charles Whitman, ex-estudante de engenharia e ex-marine, se barricou na torre da Universidade do Texas acabando por matar 16 pessoas e ferindo muitas outras. Depois de estrear e vencer no festival South by Southwest SXSW, Tower arrisca-se a ser um dos documentários do ano e um sério candidato aos Óscares. Por cá, ficamos à espera da possibilidade de partilhar este fascinante e perturbante filme de Keith Maitland.

Meio século depois dos acontecimentos que traumatizaram o país e foram partilhados por muitos graças às diversas câmaras que captaram o terror de cerca de 90 minutos, lançando então a discussão em redor do porte de armas, Tower surge com renovado sentido de oportunidade e coloca o dedo na ferida das sucessivas ocorrências semelhantes. Valerá a pena recordar Columbine, Utoya, na Noruega, passando pelas tragédias de Tucson ou em Orlando, ainda este ano?

Sábia é a construção que se serve dos relatos de vários intervenientes e sobreviventes que agora são recriados por atores em excertos de animação rotoscópica, que permite fundir a imagem real em animação, sempre fundida com as tais imagens de arquivo, os relatos áudio da polícia e o registo da televisão. Provavelmente, será inevitável pensarmos em A Scanner Darkly – O Homem Duplo ou Acordar Para a Vida, ambos de Richard Linklater, ou até mesmo A Valsa com Bashir, de Ari Folman, se bem que  Tower tenha a originalidade de lidar de forma intensa com esta reconstituição da realidade.

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De resto, Maitland opta, e bem, por seguir o rumo cronológico dos acontecimentos, centrando a dramatização num casal de jovens com um futuro que é subitamente interrompido quando a grávida Claire é atingida, para logo depois o namorado Tom sucumbir mortalmente quando a tentava ajudar. De resto, os disparos saídos da torre da universidade irão marcar o ritmo desta hora e meia, à medida que diversas personagens acabam por assumir o papel relevante que acabarão por ter. Seja o homem que sai de uma loja para tentar acudir ao que pensava ser uma rixa, os jovens que interrompem um jogo de xadrez ao escutarem a notícia na rádio ou ainda o agente fora de serviço que decide intervir. E até uma jovem que arrisca a vida por se acercar de Claire ferida e deitada no alcatrão escaldante. Assim se constrói a narrativa que nos apaixona e completa aquilo que muitos apenas souberem por mera referência longínqua.

Propositadamente, supomos, a identidade do atirador é omitida e até mesmo as suas motivações, a não ser pela menção da sobrevivente Claire que confessa logo ter perdoado este jovem perturbado. Talvez seja melhor mesmo essa decisão, como que a centrar-nos no que sucedeu e não nas suas causas. Pois essas todos sabemos mais ou menos quais são. E também que dificilmente cessarão.

 

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