Julho 19, 2019
insider

Isabelle Huppert: “É mais complexo do que a mera violação”

 

Paul Verhoeven e Isabelle Hupert. Um encontro de um dos realizadores mais ousados com talvez a atriz francesa (ou de outra nacionalidade!) talhada para os mais exigentes papéis. É claro que neste filme muito se falará da cena em que é brutalmente violada, numa sequência só talvez comparada com a vivida por Monica Bellucci em Irreversível. Em todo o cado, disse-nos ela com ar impassível, é só trabalho. Pudera, ela que emerge mesmo como uma espécie de heroína amazonas de um videojogo. Sim, sim, mas não dizemos mais. Há que ver o filme.

 

Por motivos profissionais tivemos a oportunidade de entrevistar Isabell Hupert nos últimos anos e em diferentes períodos da sua carreira. Contudo, existe algo que se mantém quase tão imutável como a sua presença que parece alheia a marcas do tempo. Falamos de uma segurança feroz, intrinsecamente aliada à sua vontade de correr riscos. Afinal de contas, o que a tem empurrado para algumas das mais vigorosas personagens femininas que o cinema francês viu nas últimas décadas. Foi em Cannes que uma vez mais nos encontrámos, logo após a estreia mundial de Elle ou Ela, como se vai chamar em português, com estreia marcada para esta semana.

 

E ficamos já a imaginar o seu porte altivo, de burguesinha francesa o novo filme de Michael Haneke, Happy Ending, aflorando o tema dos migrantes africanos em Calais. Mas essa fica para outro festival.

 

Diz-se que Elle/Ela é um filme 100% verhoeviano, mas acrescentaria que é também 100% isabelhupertteano… (risos).

(risos) Sim, concordo.

 

Tanto quanto sei, a Isabelle estava interessada neste livro desde o início, mesmo antes do Paul tomar conhecimento dele. O que foi que encontrou de tão intenso nesta história que achou ser o projeto indicado para si?

O livro é fantástico e o papel da minha personagem também. Quando o li achei-o muito complexo e ideal para ser convertido em filme. Desde logo porque o livro não dá pistas sobre o comportamento dela, algo que para uma atriz é sempre interessante interpretar. Isso permite-me criar uma espécie de suspense. Nesse sentido, neste livro cada personagem tem um lado de suspense.

 

Quase hitchcockiano, diria…

Sim, tem um elemento de certa forma hitchcokiano, pela forma como as pessoas se comportam, já que é quase sempre inesperado. O livro foi escrito assim e o Paul procurou seguir essa vertente. É, de resto, esse lado de suspense que nos leva a seguir esta mulher, os seus segredos. Ela é imprevisível e nunca fornece explicações sobre o que faz.

Conhecia bem o Paul antes de fazer o filme?

Não. Bom, é claro que conhecia o seu trabalho. E tinha-o encontrado algumas vezes. Primeiro, quando era ainda muito jovem e vira o Turkish Delight/Delícias Turcas (1973). E fiquei completamente fascinada pelo filme. Já muito verhoeviano. Uma excelente mistura entre emoção e o comportamento mais livre da personagem. É sempre bom penetrar na mente de uma pessoa. Isso já existia em Delícias Turcas, ainda no seu período holandês. Depois, lembro-me de ter jantado com ele, em Los Angeles, juntamente com muita gente. Na altura achei-o muito intimidante, pois era o realizador de Robocop e Starship Troopers. Já era um realizador muito dentro do espírito de Hollywood. Na altura, acho que mal saberia que eu era. Finalmente, em Paris apresentei uma retrospetiva dele na Cinemateca Francesa, sobretudo porque o Serge Toubiana (na altura diretor) sabia quanto eu gostava do cinema dela.

 

De que forma essa vontade de trabalhar com o Paul Verhoeven a desafiou para encarnar uma personagem que é violada e depois tem essa reação tão ambígua ao agressor?

Talvez porque tenha percebido que esse não era o ponto central do filme. O que uma mulher que é violada e se apaixona pelo violador. Acho que o filme não se reduz a isso. É mais complexo do que a mera violação. Há diversos aspetos laterais, apesar da violação ser o aspeto principal de toda essa violência. Mas há a violência familiar, hereditária, relações familiares e profissionais complexas, amizade, relações de amor… Na verdade, o filme é bastante rico e complexo.

 

A Isabelle contribuiu com alguma ideia sua para esta história? Pergunto isto porque o Paul nos disse que a Isabelle tinha a sua visão pessoal sobre a personagem. E teria inclusive participado na elaboração do story board dessaa sequência fulcral…

Sim, mas colaborei apenas no sentido do papel que estava a fazer. É claro que pela maneira do Paul filme deu-me toda a liberdade para fazer o que entendesse com a personagem. Foi o que fiz. E considero que é a melhor maneira de fazer um filme, pois permite-nos criar a melhor ligação entre a personagem e o ator.

 

Foi complicado para si lidar com toda essa violência da cena?

Foi tecnicamente difícil para ele. Mas para mim não foi complicado. Não me magoei tanto como parece.

 

Por falar em complexidade, o que lhe significa para si a a cena com o pássaro?

Adoro a cena do pássaro! Adoro a cena do pássaro. Tal como muitas outras coisas no filme. Até porque o que quer que Verhoeven nos diz no filme temos sempre de colocar em paralelo com outras coisas. Por um lado, temos essa violência entre um gato e um pássaro, mas temos também aquele pai que matou dezenas de crianças. De certa forma, isso é também o que é a Humanidade. No sentido de se preocupar com a morte de um passarinho a par de outras coisas mais horríveis que acontecem no mundo.

 

Sabia alguma coisa sobre este universo dos videojogos?

Não, mas achei uma ideia brilhante. É claro que no filme percebo imenso, apesar de não perceber patavina do que estou a dizer. No entanto, parece-me uma excelente ideia pois é algo que não existe no livro. A estética do universo gaming é excelente para contrapor com a violência do nosso mundo. Bem como um lado um pouco arbitrário de como as coisas acontecem, sem ligação e sem explicação. Acho que foi a escolha perfeita.

 

Sente que estes desafios de conotação sexual, este não é seguramente o primeiro,  funcionam para si sobretudo como um desafio interpretativo?

Não quero parecer cínica, mas o tipo de emoções que o ator vive são muito diferentes das vividas pelos espetadores. Sei disso porque sou atriz, mas também espetadora. É totalmente diferente. Digamos que mesmo nas cenas mais intensas e dramáticas existe um certo prazer interpretativo. É algo instintivo, mas que é também trabalho. Por isso acaba por haver essa distância.

 

Com uma vida tão intensa, pode dizer-se que a Isabelle vive um pouco na espuma dos dias, das propostas que lhe chegam?…

Fazer filme é viver o presente. É algo que fazemos, como fazemos. Não vale a pena preparar mais ou tentar prever o que se vai passar. É sempre algo imprevisível. No cinema é algo que existe no momento. No caso deste filme fez-me estar totalmente submersa durante dize semanas, em cada cena. Foi incrível. Não sei se repondo á sua pergunta…

 

É verdade que vai voltar a fazer um novo filme com o Michael Haneke? O que poderemos saber?

Sim, chama-se Happy Ending…. A única coisa que posso dizer é que decorre muito perto de Calais, onde estão todos os migrantes. Eu pertenço a uma família local, uma família muito abastada da região industrial do Norte. Mas não posso adiantar mais… Até porque é tudo o que sei. Participa também o Jean-Louis Trintignant, o pai, eu sou a filha, o Mathiew Kassovitz, o filho. Há, claro, laços familiares.

 

Podemos depreender que terão alguma ligação com emigrantes?
Vamos ver.. Mas, claro que isso é possível.. (risos)

 

É verdade que vai voltar ao teatro, em Londres, onde não vai há mais de 25 anos?…

Sim, será a minga primeira vez em Londres a fazer uma peça em francês. Estive no National Thetare, a fazer Mary Stewart, em em 1995.

 

Por isso pergunto, o que sente uma atriz como a Isabelle no momento em que recebe um papel para interpretar. É seguramente um desafio, será também uma ansiedade?

Neste caso não existiu qualquer tipo de hesitação a trabalhar com o Paul. Algo que pode acontecer com um estreante, em que as suas escolhas poderão ser mais desconhecidas por isso mesmo.

 

Aparentemente, a Isabelle entrou também no negócio da distribuição de cinema… É verdade?

Não diria que entrei no ‘negócio’. O que fiz foi recentemente tomar a direção de um cinema, o L’Action Christine. Comprei o cinema e o meu filho dirige-o, programando-o. É um desses cinemas de bairro, mas que é um dos orgulhos de Paris porque só passamos filmes antigos. Hoje chama-se Christine XXI. Recentemente fizemos uma retrospetiva de filmes do John Ford, agora iremos fazer do Antonioni.

 

A Isabelle foi uma das poucas, se não a única, que ganhou já duas vezes o prémio de interpretação em Cannes, apesar de ter vindo cá já inúmeras vezes. Estar em competição causa-lhe algum tipo de ansiedade?

Vejamos, como disse, venho aqui há muitos anos, e, sim, ganhei já duas vezes esse prémio. Do qual muito me honra. Mas quanto à ansiedade não posso subscrever. Sabe, para mim representar implica uma entrega de várias semanas a um papel, a uma personagem. Um mergulho, que pode ser por vezes doloroso, por vezes menos doloroso. E onde damos muito de nós próprios. Mas não deixa de ser trabalho. Nesse sentido, e o cado de Elle não é diferente, tratou-se de trabalho.

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