Outubro 22, 2020

Pierre Étaix: “O humor é uma dádiva do céu “

Entrevista de João Antunes

 Uma das maiores estrelas do cinema cómico foi agora lá para cima

 Actor, realizador, desenhador, artista de circo e de music-hall. Herdeiro dos pioneiros do burlesco, como Buster Keaton, que tanto amava. Trabalhou com Jacques Tati e Jerry Lewis. Venceu um Óscar em 1962 com a curta-metragem “Heureux Anniversaire”. Aos 87 anos, era um dos génios esquecidos do mundo do cinema. Após vários anos de disputas legais pelos direitos dos seus filmes como realizador, assinados sobretudo nos anos 60, foi apresentando a sua obra por todo o mundo. Como na Cinemateca Portuguesa, integrada na 11ª Festa do Cinema Francês, em 2010. Ocasião para um bem emotivo encontro, que agora recordamos, na altura da sua morte e em memória do seu legado.

 Portugal é um país não muito distante de França, mas com uma cultura e uma história diferentes. Acha que o humor é universal?

 Há um tipo de humor que atravessa as fronteiras de uma forma mais fácil. É o humor que se baseia na observação. Como o que Tati fazia. Um humor feito da observação de situações simples, que toda a gente reconhece. E nem são precisas palavras. Veja o Buster Keaton…

 É um dos seus grande modelos…

 Para mim era um gigante. Como o Chaplin, mas de uma forma diferente. O Keaton nunca abordou questões políticas e sociais. E nunca procurou agradar a ninguém. O Chaplin exercia uma sedução permanente para com toda a gente.

 Vivemos actualmente num momento de crise. É a altura ideal para o humor florescer?

 Não sei se será ideal, mas pelo menos pode inspirar o humor. Há dois anos comecei a escrever o projecto de um novo filme, e é sobre um tema que afecta toda a gente, o das sociedades que se abatem, das civilizações que morrem. De facto, tudo o que nos toca de perto pode ser objecto de um filme. Sobretudo quando é tão simples como um homem perder tudo e tornar-se sem-abrigo.

Quando se olha para a obra de autores que trabalharam o humor, como o seu caso, o Tati, o Jerry Lewis, vê-se que foram completamente desprezados pelos produtores. Mas as pessoas nunca deixaram de se querer rir…

 Foi sempre um problema. É o desprezo das pessoas que fazem cinema como comércio. Preferem as coisas fáceis, porque acham que chamam mais público. Mas é preciso respeitar o público. Eu sempre tive confiança no público. Mesmo se não é muito numeroso, acho que o meu público nunca se sentiu atraiçoado.

 O que se passa com o Jerry Lewis é mesmo trágico…

 Desprezado no seu próprio país… Mas já vem de trás. O Max Linder foi o primeiro grande comediante. Para o Chaplin, era o mestre. E hoje ninguém se interessa por ele. O humor é uma dádiva do céu, não se pode pedir a ninguém que o tenha. Quando olhamos para as pessoas que nos governam, vemos logo que não têm o menor sentido do humor.

 Quando deixou de fazer filmes, virou-se para o circo e para o teatro. A satisfação criativa é a mesma do cinema?

 O prazer que senti no music-hall e no circo são incomparáveis. O público responde-nos de imediato. E dá tanto trabalho. Fiz números de cabaré durante três anos e estava sempre a aperfeiçoar este ou aquele detalhe. E não há nada como a comédia clownesca. A maior felicidade é o riso imediato das pessoas à nossa frente. É um amor partilhado.

 Nesse sentido da paixão pelo circo, é uma espécie de irmão de sangue de Fellini…

 Quando fiz o primeiro filme ia ver como estava a projecção, como é que as pessoas reagiam. Um dia, logo a seguir, entrei numa sala onde estavam a projectar o “8 ½”. Quando saí disse para comigo que nunca mais ia fazer filmes. O Fellini revolucionou por completo a linguagem cinematográfica. Como o Renoir da “Regra do Jogo”.

 Mas acabou por voltar a fazer cinema…

 Desmobilizei durante dois dias, mas depois vi o filme que tinha de fazer. Devo-o ao Fellini. Herdamos sempre dos grandes mestres.

 Como é que vê hoje o humor no cinema francês?

 O cinema e a televisão confundem-se hoje. E o que vejo na televisão não me dá muita vontade de ir ver esses filmes. Já sei o que me espera. Não quero chorar de desgosto por ver como é que esses filmes funcionam. Mas se as pessoas riem, não tenho nada contra.

 Em que está a trabalhar neste momento?

 Estou a preparar um espectáculo de music-hall. Vamos começar a apresentá-lo na Suíça. Estou a regressar às origens.

 Ainda se sente com energia?

 Claro que sim. Espero que a vontade seja mais forte. Aos 82 anos as articulações começam a estalar…

 O que lhe dá vontade de rir, hoje em dia, quando olha para o mundo à sua volta?

 O que sempre me inspirou nem são as coisas mais divertidas. São sobretudo situações mais ou menos dramáticas, mas que geram o humor. Mas hoje as situações são tão graves…

Sobre João Antunes 6 artigos
João Antunes é jornalista e crítico de cinema há trinta anos, com percurso em jornais como O Jornal, O Se7e, Diário de Notícias ou Jornal de Notícias. Escreveu “Melhores Filmes, Melhores Cineastas”, “À Conversa Com Os Senhores dos Anéis” e “MOTEL/X 10 Anos de Terror”, além de ter participado em várias obras colectivas, como “Bond, James Bond” ou “Quem é Quem no Cinema e no Vídeo”. Colaborador de enciclopédias nacionais e internacionais, traduziu para português “Hitchcock Par Truffaut”. Membro da FIPRESCI, fez parte do Júri da Crítica em vários festivais, como Cannes e Berlim, Festróia e Indie Lisboa. Foi Presidente do Júri do Cinanima. Foi professor de História do Cinema na Universidade Moderna. No cinema, foi Director Artístico da curta-metragem “Jours Intranquilles”, de Latifa Said.

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