Outubro 29, 2020

O Abraço da Serpente

O choque das leis da natureza com o posto avançado do progresso

O preto e o branco sublimam da forma mais sublime os mais de 50 tons de verde da luxuriante floresta amazónica no magnífico relato do colombiano Ciro Guerra nesta sua terceira longa metragem totalmente filmada na selva amazónica local, algo inédito há 30 anos. Assim se perfila uma inquietante odisseia aos mistérios da natureza, captando de forma admirável o equilíbrio entre o vegetal o humano, sublinhado pelo exuberante trabalho de fotografia de David Gallego, num registo absorvente, sem embora deixar de ser inquietante.

O filme acompanha duas explorações – a do investigador alemão Theo (o Jan Bijvoet de Borgman), em 1908, e do cientista americano Evans (Brionne David), em 1940 -, ambos em busca de uma planta milagrosa e também unidos pela ajuda de Karamakate (Nilbio Torres, em novo, e Antonio Bolivar, mais velho), um dos derradeiros membros da tribo dos ídios cohiuanos em vias de extinção.

Entre essa boa metade do século XX, temos uma espécie de elipse que narra um processo de colonização desastroso para a região agudizado com a exploração e extração da borracha, considerado na época o motor da civilização, mas também a morte para os nativos, e onde os portugueses, tal como os espanhóis, estes mais visados no filme através de um retrato maia negro das missões, tiveram uma fatia generosa da dos proventos, bem como dos danos causados.

No entanto, a presença portuguesa acaba por ser outras marcas, neste caso, num plano mais cinematográfico, desde logo pela marca profunda que o Tabu, de Miguel Gomes, deixou na iconografia da natureza colonial captada em tons de cinzento. No entanto, a forma de captar a proximidade (e incapacidade) do homem branco perceber a selva, ficou talvez ainda mais vincada no estranho e inquietante Posto Avançado do Progresso, de Hugo Vieira da Silva, até porque logo partilhada por essa proximidade ao universo próximo de Joseph Conrad, de onde Posto é adaptado.

Isto apesar da proximidade óbvia do cinema de Werner Herzog , especialmente evidente em Aguirre, a Cólera de Deus, de 1972, dado pela expedição espanhola ao suposto El Dorado, bem como, o épico Fitzcarraldo, que decirre em plena selva amazónica, e filmado dez anos depois.

Esse aviso à singularidade orgânica da selva é dado, logo no início, por Karamakatu que exorta o alemão Theo a respeitar as leis da natureza como a única forma de poder sobreviver e, eventualmente, encontrar a yakruna, a tal planta milagrosa. Uma planta trazida pelos índios e com grande capacidade de cura é mesmo referida no seu filme de estreia, La Sombra del Caminante.  Mas mesmo que estes dois ‘brancos’ estejam movidos de intenções de descoberta científica, ficará claro, cada um na sua altura, que ambos possuem diferentes agendas, de certa forma desconformes com esse equilíbrio natural.

O Abraço da Serpente foi um digníssimo nomeado ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, a concluir um percurso notável iniciado há quase um ano, em Cannes, ponde receberia o prémio CICAE, apenas a primeira distinção antes de colecionar diversos prémios e pelos diferentes festivais por onde foi passando. É, por diversas razões, um dos mais belos filmes sobre as leis da natureza e os códigos de sobrevivência, a par com o inevitável confronto colonial.

Depois do realismo absurdo de La Sombra del Caminante, um pequeno objeto de culto de baixíssimo orçamento, também a preto e branco, de 2004, realizado apenas aos 23 anos, Ciro Guerra esboçou uma nova deambulação em Los Viajes del Viento, de 2009, que acabou por o afirmar, desde logo pela presença em Cannes na secção Um Certain Regard. Ao acrescentar agora este marcante Abraço da Serpente, acaba por impôr o seu nome, ao mesmo tempo que traça esse elemento comum de procura, sem embora nunca abdicar de uma identidade profundamente colombiana.

Filme exibido no 35º IKSV Festival Internacional de Intambul – Secção Direitos Humanos

 

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