Outubro 31, 2020

Boi Neon

De um dos realizadores a seguir na nova vaga do cinema pernambucano, com Boi Neon Gabriel Mascaro passou a ser um dos expoentes mais frescos do novo cinema brasileiro desde que este Boi foi exibido no festival de Veneza, na secção Horizontes em setembro passado. Passou agora em Istambul na secção Jovens Mestres, empenhada em revelar novos talentos, na sua estreia ou segundo filme, embora já com uma aceitação crítica e reconhecimento em festivais internacionais.

Boi Neon é um filme de sonhos. Entre a realidade crua da vida rural da vaquejada, aqueles que vivem em redor dos rodeios de bois brasileiros, num país de acentuadas transformações económicas, e a hipótese de pensar numa outra vida. Sem elaborar juízos de valor, Mascaro capta os rituais de um conjunto se pessoas que trabalham quase com a intimidade de uma célula familiar, onde o género sexual não está necessariamente adaptado a convenções ou profissões.

De certa forma, um pouco como sucede no absorvente Stop the Pounding Heart do italiano Roberto Minervini, em que uma comunidade hamish texana vive ao lado de vaqueiros e rodeios, numa outra bela interferência do documental da ficção.

Aqui estas pessoas sonham com a beleza e o encanto dos cavalos mas sabem que têm de contentar-se com a brutalidade dos bois e de limpar os seus excrementos. Apesar de num Brasil a sofrer rápidas transformações, a ideia do melhoramento da raça não esteja de todo afastado. Veja-se, por exemplo, o musculado Iremar (Juliano Cazzaré, um dos atores em alta no Brasil, presente, por exemplo, em Serra Pelada ou Festa da Menina Morta), possuidor de uma sensibilidade particular para tratar e encantar cavalos, que demonstra num sensual jogo em que homem submete o animal ao ponto deste se deixar afagar como se fosse um cachorro carente.

No entanto, ele sabe que o seu lugar é a preparar os bois para a vaquejada, o rodeio em que cavaleiros correm para tentar derrubar o boi na arena. Embora não deixe de acalenta o sonho de criar roupas, um hobby que treina ao desenhar bikinis com esferográfica nas páginas coladas de revistas de ‘mulher pelada’ que servem de inspiração masturbatória ao colega Zé (Carlos Pessoa). E ao juntar peças de manequim que apanhou na lama, cria a roupa que Galelga (Maeve Jinkings, de O Som ao Redor) irá usar no show titilante em que se exibe o corpo e esconde o rosto atrás de uma cabeça de cavalo.

Também ela desejava ter mais oportunidade de usar as calcinhas de fio dental sem ser aqui, pois tem de ser tratar da mecânica do camião que transporta os animais e os humanos, ela que aprendeu a fazer depilação das virilhas com as pernas abertas ao volante. Há ainda a pequena Cacá (Alyne Santana), a criança respondona, sem pai, que desenha cavalos nos espaços livres da revista de mulher pelada.

Mascaro convida-nos a esse novo Brasil, mas também a esse cinema de procura, de um procura cheia de erotismo natural, seja no episódio caricato, ainda que perturbador, em que Iremar e Zé tentam roubar sémen de um cavalo eleito destinado a fazer inseminação artificial à égua Lady Di ou ainda o mais perturbante momento sensual com uma grávida vendedora de perfumes Geise (Samya De Lavor) e guarda nocturna de uma fábrica de roupa que acaba finalmente por provocar a tal tesão ao até ali assexuado Iremar para uma das mais fortes cenas de sexo de que nos recordamos. Lá está, é o cinema a parir algo de novo. Cheio de vida, de pica. De tesão.

 

Sobre Paulo Portugal 874 artigos
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