Janeiro 21, 2020
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Pack Luchino Visconti: Mão-cheia de grande cinema

Aproveitando a efeméride da comemoração sobre os 110 anos do nascimento de Luchino Visconti, no dia 2 de novembro de 1906, bem como os 40 anos da sua morte (em março de 1976), a Alambique acaba de lançar uma box valiosa com os 5 primeiros filmes daquele que é considerado um dos maiores cineastas italianos do século XX e um dos expoentes do movimento neo-realismo, mas também das suas variantes a aflorar uma vertente mais barroca e onírica. Oportunidade então para admirar a urgência do seu cinema em obras mestras como “Obsessão”, “A Terra Treme”, “Belíssima”, “Sentimento” e “Noites Brancas”, em edições que apresentam os cartazes da época. Embora sem extras, por vezes com algumas marcas do tempo, ainda assim com uma qualidade assinalável. Destaque-se a versão restaurada de “Sentimento”, a acentuar todo o seu brilhantismo visual.

Visconti nasceu em berço de ouro numa das mais abastadas famílias Milão e foi educado de forma aristocrata, com proximidade ao teatro, à ópera e à música, razão pela qual haveria de o pisar o palco do Scala de Milão com tenra idade a tocar violoncelo. Ainda assim, o jovem Luchino jamais de subjugaria ao peso desse estatuto de classe e sempre se mostrou mais próximo do homem comum. De resto, a sua indisciplina levá-lo-ia a fugir de casa várias vezes forçando o pai a colocá-lo numa instituição militar. Mais tarde haveria de evocar essa formação no belíssimo e operático “Sentimento”, de 1954, em que a colaboração de Tennessee Williams e Paul Bowles nos diálogos ajudam a Alida Valli e Farley Granger testemunharem o “Risorgimento” unificador de Garibaldi, em meados do século XIX. De resto, um tema e ambiente a ser retomado, quase uma década depois, no portentoso “O Leopardo”.

 Em “Obsessão”, a sua estreia no cinema, em 1943, Luchino procuraria precisamente esse espaço de liberdade exterior, na adaptação do livro “O Carteiro Toca sempre Duas Vezes”, de James M. Cain, um filme que não haveria de estrear nos Estados Unidos devido a conflitos de direitos de autor. Em todo o caso, esse registo sobre a sedução de uma mulher casada com um desempregado sem eira nem beira, seria o suficiente para irritar o regime de Mussolini e a censura que haveria de conduzir o realizador à cadeia. Rezam as crónicas que Visconti apenas escapou a ser executado não fosse a chegada a tempo da libertação das tropas americanas. Hoje em dia, trata-se de uma das obras centrais do movimento do neo-realismo italiano e onde os percursores da “nouvelle vague” francesa vieram buscar sustento e afirmação.

Esse universo do trabalhador motivaria histórias intensas, como o quase documental “A Terra Treme” (1948), sobre a vida da comunidade piscatória da Sicília e uma família cuja vida e sustento é investido num barco de pesca a operar de forma independente dos comerciantes grossistas. Um filme em que os próprios habitantes da comunidade assumiram o seu papel de atores a representar sua própria realidade e a usar o seu dialecto. O mesmo se diga do seu filme seguinte, “Belíssima” (1951), oscila entre o neo-realismo e o barroco, num filme de transição de Visconti para “O Leopardo” e “Morte em Veneza”, com Anna Magnani no papel de uma mãe que tenta inscrever a sua filha num casting dos estúdios CineCitta, que procuravam “a menina mais bela de Roma”. O resultado acaba por ser um belo retrato tragicómico entre o sonho e a realidade.

 

 Este pack contém ainda “Noites Brancas”, uma adaptação de Dostoyevsky naquilo que será um exercício sobre a realidade e a fantasia, optando pela atualidade e não pelo século XIX de São Peteresburgo, também aqui numa variante deliberadamente artificial do neo-realismo. Com um Marcello Mastroianni taciturno ao lado de uma sonhadora Maria Schell.

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