Outubro 31, 2020

Vincent Macaigne: “Sirvo-me do sistema para continuar a criar”

Já foi apelidado de “novo Dépardieu”. Falam dele como “o furacão Macaigne”. O Indie Lisboa não hesitou em o convidar para ser um Herói Indie da sua edição de 2016. Pode perceber melhor quem é Vincent Macaigne se for ver Os Dois Amigos, estreia na realização de longa-metragem de Louis Garrel. Ou se ler a entrevista que o actor nos concedeu durante a sua passagem por Lisboa.

Veio do teatro, começou a fazer filmes com os amigos e pertence a uma geração que marcou forte presença no Festival de Cannes de 2013, onde foi logo marcada pelos Cahiers du Cinéma. Entre nós lembramo-nos seguramente do tipo “chato” de A Batalha de Solferino, registo que repetiu em Des Nouvelles de la Planète Mars, o novo Dominik Moll que vimos este ano em Berlim. São personagens à margem como essas e muitas outras que marcam o seu percurso e levaram o Indie Lisboa a considerá-lo um dos Heróis Indie da edição deste ano. Como nos seus filmes, é um Vincent Macaigne inquieto e hiperactivo que nos recebeu para falar de si, da sua carreira e do cinema francês de hoje. Sem esquecer uma menção a Miguel Gomes.

O Indie Lisboa apresentou-o como o novo Gérard Dépardieu. É uma comparação que o aborrece ou deixa-o orgulhoso?

É verdade que é uma comparação que me persegue e se cola à minha pele. Em França é a mesma coisa. Mas não sei porquê. Eu adoro o Dépardieu, mas acho que não tenho nada a ver com ele. Deixa-me lisonjeado, mas não mais do que isso. Até já falámos sobre isso, o Dépardieu e eu.

Mas há uma expressão que se adequa bem ao seu percurso recente, o vulcão Macaigne. De onde vem essa força interior? Já era assim em criança?

Não sei. É algo que não me apercebo. Sou assim. Não sei como responder a essa pergunta. Não consigo fazer auto-análise. Quando era criança acho que era um miúdo discreto.

E ser considerado o Herói Indie deste festival, agrada-lhe?

Toca-me bastante. Houve um momento em que fiz imensos filmes com os meus amigos, sem qualquer preocupação, sem dinheiro, sem nada. Foi como que um movimento que terminou. Esta retrospectiva como que anuncia o fim de algo que aconteceu. Agora tenho de imaginar como é que vou fazer coisas novas.

É verdade que na maior parte dos casos as suas personagens estão um pouco à margem. É assim que gosta de se sentir na vida?

Não é bem isso. Mas no meio dos meus amigos criadores, como aliás em toda a Europa, sobretudo com os jovens, o momento é bastante complicado. Essas personagens que tenho interpretado representam o que vivemos hoje. Eu vivia num pequeno apartamento, não tinha muito dinheiro para viver, agora tenho mais algum. Era duro. O que eu e os meus amigos colocávamos em cena éramos nós, era o nosso meio social.

É algo que fazia falta no cinema francês?

Quando vejo filmes que se passam num meio burguês, onde as pessoas só têm facilidades, não me reconheço. Eu passei por muito, mesmo para comer. Os nossos filmes foram feitos de uma forma guerrilheira. É importante continuar esse gesto, mas também dirigir-nos a um público mais vasto.

Há o risco do sistema o seduzir?

Por vezes também faço filmes de maior orçamento. Mas são filmes bem escritos, de que gosto muito. E isso permite-me viver, ter algum dinheiro, correr outros riscos e investir esse dinheiro para fazer coisas e pagar às pessoas, sem grandes preocupações. Sirvo-me do sistema para continuar a criar.

Como é que define o cinema francês de hoje?

É estranho porque há muito vigor mas também muitas restrições. Não sei se o Miguel Gomes poderia ser francês. Há muitos realizadores estrangeiros que adoramos, mas que se fossem franceses teriam enormes dificuldades em fazer os seus filmes. Não há muitas coisas novas a sair. Talvez no humor, porque os franceses adoram as comédias. Temos um problema com a criação pura.

O que o levou a tornar-se ator?

Eu comecei por ser encenador de teatro. Foi um amigo meu que me levou a começar a ser ator, um pouco tardiamente. Foi através dele e de outros amigos que comecei a entrar em filmes.

Que tipo de teatro é que fazia, enquanto encenador?

Encenei imensas peças. Ainda o faço. As pessoas dizem que é um pouco trash. Faço o meu trabalho com as minhas palavras, com aquilo que sou.

Há muitos actores que dizem que escolheram a profissão para ultrapassar a timidez. Diria que é o seu caso?

Acho que não foi por isso. Comecei a fazer teatro porque era muito mau na escola. E para acabar o liceu podia escolher a opção do teatro, que me parecia mais fácil que as outras. Ajudou-me imenso. Depois comecei a descobrir este mundo. E era de loucos, a liberdade que me dava. O teatro foi um espaço de liberdade para mim.

É a primeira vez que está em Portugal?

Já tinha vindo uma vez a Lisboa, mas conheço mal porque foi só um fim de semana. Mas adoro o que tenho descoberto. É uma cidade sublime.

Sobre João Antunes 6 artigos
João Antunes é jornalista e crítico de cinema há trinta anos, com percurso em jornais como O Jornal, O Se7e, Diário de Notícias ou Jornal de Notícias. Escreveu “Melhores Filmes, Melhores Cineastas”, “À Conversa Com Os Senhores dos Anéis” e “MOTEL/X 10 Anos de Terror”, além de ter participado em várias obras colectivas, como “Bond, James Bond” ou “Quem é Quem no Cinema e no Vídeo”. Colaborador de enciclopédias nacionais e internacionais, traduziu para português “Hitchcock Par Truffaut”. Membro da FIPRESCI, fez parte do Júri da Crítica em vários festivais, como Cannes e Berlim, Festróia e Indie Lisboa. Foi Presidente do Júri do Cinanima. Foi professor de História do Cinema na Universidade Moderna. No cinema, foi Director Artístico da curta-metragem “Jours Intranquilles”, de Latifa Said.

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