Agosto 18, 2019
insider

Anton Yelchin: “O Porto é uma cidade maravilhosa”

O mundo do cinema ainda está em estado de choque com a notícia da morte, em circunstâncias trágicas, de Anton Yelchin, aos 27 anos. O actor de origem russa, chegado aos Estados Unidos ainda bebé com os pais, uma dupla bem sucedida de patinadores artísticos, começou a trabalhar aos 11 anos e não mais parou, sendo mais conhecido pelo seu papel de Chekov na mais recente série da saga Star Trek.

Os mais variados elogios fúnebres falavam sobretudo de alguém com uma enorme criatividade e vontade de fazer coisas. Como podemos comprovar ao recordar a conversa que com ele mantivemos em Cannes, a propósito de Green Room, sobre uma banda de música punk que, depois de testemunhar um crime, tem de sobreviver à fúria de um grupo de skinheads, numa pequena povoação perdida no meio dos Estados Unidos. Pouco antes do nosso encontro, Yelchin estivera no nosso país a rodar Porto. Foi por aí que começámos a nossa conversa.

Como é que foi a sua passagem pelo Porto?

Adorei lá estar. O Porto é uma cidade maravilhosa. E a equipa portuguesa foi óptima. O Rodrigo Areias, o produtor, e a mulher dele. Gostei imenso daquela gente. Foi duro, porque não tínhamos muito dinheiro nem muito equipamento. É óptimo ver gente que faz um filme simplesmente porque tem uma enorme vontade de o fazer.

O que podemos esperar do filme?

O Porto é o primeiro filme de ficção do Gabe Klinger. Já tinha feito um documentário sobre o James Benning e o Richard Linklater, chamado Double Play, que era óptimo. Foi uma grande experiência, mas muito duro. Foi um bocado de loucos, porque é um pequeno filme, mas rodámos em três formatos diferentes, 8mm, 16mm e 35mm.

Como é que foi escolhido para esta produção?

Conheci o Gabe através do meu amigo Michael Almereyda. E não tinha guião, só havia a ideia, baseada num conto. O Gabe é um tipo magnífico. Estudou imenso sobre a preservação de filmes. Foi crítico de cinema. É um tipo fascinante. Deu-nos imensa liberdade para criar, mas também foi um grande desafio. O meu gosto leva-me sempre a coisas experimentais. Estou muito feliz por ter feito este filme.

Em Green Room toca numa banda, como na vida real…

Um dos meus melhores amigos toca na banda. Há muito tempo que tocamos todos juntos. Mas não levamos a coisa muito a sério. Nós tocámos em sítios mesmo muito maus. Mas também tivemos concertos muito bons em garagens. Os melhores concertos que demos foram em garagens, sente-se a vibração das pessoas. Estarmos todos a fazer qualquer coisa que mexe com as pessoas. E é tão bonito ver aqueles corpos todos a mexer. Vê-se como as pessoas estão a libertar energias, mesmo que por vezes seja de forma mais violenta. Lembro-me de ver uma rapariga que foi atingida no peito e caiu para trás. Ninguém a foi socorrer, continuaram todos a dançar. E nós ali a tocar. Mas ao mesmo tempo ela parecia que estava a ter o melhor momento da vida dela.

Neste filme trabalhou com o Patrick Stewart. Como é que foi, falaram muito do Star Trek?

É engraçado, porque já o tinha encontrado uma vez. Acho que ele não se lembra. É um autêntico cavalheiro, uma pessoa muito educada. Falámos sobretudo de literatura russa. Mas não falámos muito. A rodagem foi muito intensa, tínhamos de estar sempre muito concentrados no trabalho. Mas ele é um homem adorável. E muito divertido.

É fã da série de televisão original?

Eu nunca vejo televisão. Há tantos filmes que preciso ver. Se começar a ver televisão, nunca mais chego aos filmes. Gosto muito dos filmes de terror dos anos 30, como The Cat and the Canary, do Paul Leni.

Um filme do género fantástico, como acaba por ser Green Room

O filme também deve muito a alguma literatura pulp. Acho que as pessoas gostam destes filmes porque num momento ou noutro das nossas vidas deparamo-nos todos com o desconhecido, com o sobrenatural. O desconhecido é uma imensidão. O que nós sabemos é minúsculo, em comparação com o que não sabemos.

Parece ser um verdadeiro cinéfilo, ainda se lembra da primeira vez que foi verdadeiramente espantado por um filme?

A primeira vez que fiquei de boca aberta com um filme foi com o Con Air. Devia ter uns oito anos quando os meus pais me levaram a ver o filme. Acho que há frases que o Malkovich e o Danny Trejo dizem que na altura nem sabia o que queriam dizer, mas fiquei tão aterrorizado que ao chegar a casa fui brincar com os meus bonecos do Action Man para imitar esses diálogos. Definitivamente, foi o meu primeiro grande impacto cinematográfico.

Não sabia ainda que iria fazer do cinema a sua carreira…

Quando comecei a trabalhar os meus pais disseram-me que tinha de ver bons filmes. Os filmes de Fellini impressionaram-me muito. O filme que me deixou uma impressão mais duradoura foi o Taxi Driver. Continua a ser o meu filme favorito. Vi-o com 13 anos e já perdi a conta de quantas vezes o vi. E de cada vez o acho melhor. O Midnight Cowboy também. OK, o Taxi Driver, o Clockwork Orange e a remake do Cape Fear são os meus filmes favoritos.

Parece que gosta de filmes duros, como Green Room

Vi o filme pela primeira vez ontem na projecção. Tinha a ideia que tudo o que tínhamos feito era duro, mesmo miserável. Mas as pessoas riem e adoram o filme. Nós achávamos que não ia ser nada divertido na tela. Fomos tão sérios. Houve dias em que não podia ouvir nem mais uma pessoa a chorar. Havia seis pessoas numa sala fechada e toda a gente estava aos gritos. Mas depois vemos no ecrã e há coisas que são hilariantes. Mas durante a rodagem foi aterrador. É engraçado, há uma enorme discrepância entre o fazer e o ver um filme.

 A rodagem também foi esgotante, do ponto de vista físico?

Sim, muito. E também havia muitas limitações. Imensas coisas para fazer. Por exemplo, uma das cenas do filme, são apenas três minutos, mas no guião eram 15 páginas. Demorou dois dias a filmar. Quando vemos o filme passa a correr, mas foi muito cansativo de fazer.

Começou a trabalhar muito novo. Deve ter tido excelentes mentores…

Não posso dizer que alguém me tenha dado conselhos muito específicos. É mais por osmose, por ver as outras pessoas trabalhar. Lembro-me por exemplo de estar com o Donald Sutherland e perguntar-lhe pelo Fellini e dele me falar do Casanova. É óptimo poder trabalhar com gente que admiramos tanto pelo seu trabalho. Não gosto da expressão longevidade, porque há uma certa condescendência nisso, mas há gente que trabalhou tanto, que pôs tanto de si em tantos filmes.

Também já trabalhou com grandes cineastas, como o Paul Schrader ou o Jim Jarmusch…

Como adoro cinema, é magnífico poder conviver com tantos realizadores. É claro que há muitos realizadores que não têm uma visão, e isso é triste. Mas há realizadores que têm um ponto de vista muito preciso sobre o cinema. Têm uma linguagem própria. É óptimo poder trabalhar com eles porque já sabemos qual vai ser a sua linguagem, que tipo de imagens vai criar. Há uma relação de confiança e isso é imensamente confortável. Quando admiramos um realizador, queremos fazer parte do mundo que ele criou.

Já há um novo Star Trek a caminho…

Eles gostam de manter tudo muito em segredo. Mas já foi assim da outra vez, não fiquei surpreendido. Foi a primeira vez que fui a um estúdio fazer uma sessão de leitura do guião e não pude levar o guião para casa. É quase divertido, de uma forma estranha. Seria assustador, se não conhecesse a personagem.

Já há um espírito de família, entre os actores?

Sim, há. Estou ansioso por voltar a estar com muitos deles. É muito boa gente, são muito divertidos. Por vezes, é óptimo estar com gente que é assim tão louca. É o melhor deste trabalho. Por vezes há pessoas tão chatas. Mas tenho tido sorte. Diverti-me imenso. Mas também é como uma batata quente nas nossas mãos. Na altura de filmar, temos todos de dar o máximo e estar ao nosso melhor.

Já guarda algumas memórias em especial?

Uma das minhas melhores memórias do primeiro filme é jogar xadrez com o Karl Urban e ganhar-lhe. Não quero estar a estragar a imagem que ele quer dar dele, mas é um tipo extremamente divertido. Mas é um tipo que não vemos muito, socialmente. Cruzei-me com ele uma vez na rua, em Los Angeles. Mas são todos muito divertidos. O J.J. é um tipo hilariante. É o tipo mais divertido e mais inteligente que se pode imaginar.

Comédias, filmes de terror, de ficção científica, dramas românticos. Tem feito filmes muito diferentes. Onde é que se sente mais confortável?

Eu não penso no género de um filme. Penso mais na minha personagem e nas circunstâncias em que ela é apanhada no filme. O género de filme é mais o trabalho do realizador.

E o seu ritmo de trabalho também é impressionante…

Agora fiz uma pausa de dois meses. Um mês e meio depois de fazer Green Room já estava no Porto a filmar. Não me importo de sair de um filme e entrar noutro, mas tive de parar um bocado, para respirar, para me divertir um bocado. Toquei música. Escrevi algumas curtas-metragens. Já fiz uma curta com um amigo meu de Los Angeles. Li muito. Também fui a um festival de cinema no México. Relaxei, basicamente.

Sobre João Antunes 6 artigos
João Antunes é jornalista e crítico de cinema há trinta anos, com percurso em jornais como O Jornal, O Se7e, Diário de Notícias ou Jornal de Notícias. Escreveu “Melhores Filmes, Melhores Cineastas”, “À Conversa Com Os Senhores dos Anéis” e “MOTEL/X 10 Anos de Terror”, além de ter participado em várias obras colectivas, como “Bond, James Bond” ou “Quem é Quem no Cinema e no Vídeo”. Colaborador de enciclopédias nacionais e internacionais, traduziu para português “Hitchcock Par Truffaut”. Membro da FIPRESCI, fez parte do Júri da Crítica em vários festivais, como Cannes e Berlim, Festróia e Indie Lisboa. Foi Presidente do Júri do Cinanima. Foi professor de História do Cinema na Universidade Moderna. No cinema, foi Director Artístico da curta-metragem “Jours Intranquilles”, de Latifa Said.

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