Julho 19, 2019
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Cannes 2016: Mulheres à beira de um ataque de nervos

Kristen Stewart procura o irmão em Cannes, Almodóvar coloca uma atriz à procura do fantasma da sua filha; ontem, os manos Dardenne desenharam uma médica em busca da identidade de uma alma perdida. Mas o que se passa em Cannes?! Valha-nos o erotismo de Park Chan-Wook que sugeriu a posição mais cool deste festival! Assim vai a Competição para a Palma de Ouro!

 Comecemos pelo prato forte. E por dizer que esta edição do festival já ilustrou a edição nº 69 com uma muito adequada posição erótica replicada com entusiasmo por duas mulheres no mais recente filme do coerano Park Chan-Wook, Mademoiselle. Trilham-se aqui as atribulações de uma hábil coreana no Japão (Kim Tae-ri), nos anos 30, e a estranha relação que manterá com a dama nipónica (Kim Min-hee) que, por sua vez, passará as passinhas nas mãos do seu tio, o Conde Fujiwara (Ha Jung-hoo), incluindo mesmo alguns requintes de malvadez no lupanar da sua mansão. Para aperitivo desta primeira incursão de Park no cinema de época, até que não está mal, ainda que o desejado clímax do espetador fique algo comprometido por algum excesso do requinte do decorativismo.

 Sabemos bem do apetite do autor do pungente Oldboy, bem como do decepcionante Stoker, em trilhar o lado mais transgressor do cinema e de submeter o espectador a uma espécie de incómodo assumido. Foi o que procurou fazer com a adaptação do romance Fingersmith, da britânica Sarah Walters, com provas dadas nos entrelaçamentos sáficos, apenas aqui com a liberdade de substituir o período vitoriano britânico pelo nipónico. O resultado resulta num drama intenso e palpitante, frequentemente sedutor pelo nível elevado do recorte de produção, por vezes, provocador pelos habituais requintes de malvadez, sejam de natureza punitiva, vingativa ou sexual, tão calhados ao realizador. Mesmo tratando-se de um realizador sagaz e capaz de temperar os seus filmes com elementos titilantes e proibidos, Park acabou aqui, de certa forma, traído pelo luxo e até longe do requinte erótico de A Vida de Adèle, Palma de Ouro de 2013.

 Quem parece estar também longe da Palma de Ouro, a deste ano, é Pedro Almodóvar. Isto apesar do esforço visível em regressar à sua melhor forma, ou seja, aos seus melhores filmes, ou seja, ainda, à possibilidade de um prémio em Cannes – os melhores prémios que conseguiu na Riviera foi o de Realização, para Tudo Sobre a Minha Mãe, em 1999, e o de melhor argumento, em 2006, por Volver. Será essa uma razão porque Julieta pareça então uma espécie de primo afastado de ambos? Com a particularidade de piscar o olho a Fala com Ela, de 2002. Pena é que seja tudo forma e estilo neste Julieta, ou emoção embalada sem pinga de coração. Pelo menos, há um progresso em relação ao bimbo e disparatado Amantes Passageiros.

A história de Julieta (interpretada em duas fases, primeiro, numa fase jovem, por Adriana Ugarte e, num período posterior, por Emma Suaréz) é baseada em três shortsstories de Alice Munro, entretecendo o período que medeia a tragédia familiar e forma como ela e a filha irão lidar com o tempo e as modificações interiores.

 Vejamos, no papel, esse jogo até teria o poder de oferecer uma expectativa diversa; pena é que na tela essa deriva, sinuosa é certo, não oferece qualquer novidade para o cinema de Pedro, cada vez mais perdido num estilo barroco de estilização. É como se cada cena fosse concebida num setting de decoração de interiores. Não há pachorra.

Uma outra inquietação leva-nos a interrogar-nos sobre as intenções de Olivier Assayas em Personal Shopper, uma espécie de ghost story – nós preferimos chamar-lhe caça-fantasmas – onde recupera a colaboração da americana Kristen Stewart, que tão boa conta deu de si no fantástico As Nuvens de Sils Maria, aqui num prolongamento da personagem desse filme, assistente pessoal da estrela interpretada por Juliette Binoche, variando para a tal ‘personal shopper’ de uma socialite e trabalhando como médium freelance nas horas vagas. Para além dos fantasmas, única transgressão que vemos neste filme muito pouco assombrado é experimentar as roupas da patroa.

Ainda assim o que mais interessa neste filme – a única coisa? – é mais o seu lado de caça fantasmas. Em particular com a apetência de poder estabelecer ‘contacto’ com o mano gémeo falecido e que aparece apenas para deitar uns copos ao chão ou bater na madeira.

É claro que houve quem visse em Personal Shopper a obra-prima que não identificamos. Ficamo-nos por esta louvável tentativa de Assayas no regresso a um certo neo-horror, mas onde o mais insólito do filme é a longuíssima conversa com o além através de sms… Para um universo mais insólito, fiquemo-nos apenas por Demonlover. Ah, sim, sempre temos as maminhas de Kristen Stewart. Mas sabem a pouquinho.

 Por fim, tivemos ontem de manhã o novo filme dos manos Dardenne, La Fille Inconnue (A Rapariga Desconhecida?), uma nova incursão do cinema em movimento dos belgas no que pode ser entendido como um prolongamento natural da sua filmografia. Pode até identificar-se alguma proximidade com Rosetta, o filme que deu a primeira Palma de Ouro aos Dardenne, em 1999 (venceria também em 2005, com A Criança). Com a particularidade de se cruzar com outras personagens deste universo fraternal, como Jeremy Renier (A PromessaA Criança e O Miúdo da Bicicleta) e Olivier Gourmet (A Promessa, A Criança e Os Dois Dias e Uma Noite).

Ao ser confrontada pela polícia a propósito da morte de uma jovem que tentara, em vão, pedir ajuda no seu consultório, mas cujo momento fora captado pelas câmaras de segurança, a Dra. Jenny (Adèle Haendel) como que assume parte dessa culpa e decide investigar por conta própria. Seria esta uma forma de dar ao corpo e sua identidade, mas também, do ponto de vista desta médica diligente não deixar o caso aberto e cumprir uma função de humanidade.

O lado mais fascinante do filme é percebermos como esta médica cruza gradualmente a sua profissão com a de investigadora por conta própria. La Fille Inconnue até pode não está ao nível dos filmes premiados desta dupla, mesmo também não os desmerece.

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