Fevereiro 16, 2019

Cannes: Nicholas Winding Refn em tentativa gorada de reinventar o horror chic

A sério, Mr. Nicholas Winding Refn, acreditava mesmo que depois do tremendo hype criado com The Neon Demon a reação da imprensa seria de ovação ou ponderava até que pudesse ser de urros de ira, como na verdade se registou na primeira sessão de imprensa no festival de Cannes? Até porque tinha ainda em mente o resultado do estardalhaço que provocou o seu anterior Only God Forgives. Digamos que em Demonestamos um pouco melhor que em God, mas ainda assim, no mesmo estilo horror chic, em ritmo tecno pelos samplers de Cliff Martinez.

É que, das duas uma, ou deixou-se levar pelo ego e acreditou, ingenuamente, que o seu conto sobre o paradoxo e limites da beleza ocuparia um espaço de análise multimediática inovador, ou então, deixou-se levar pelo ego e acreditou, intencionalmente, que a provocação e o choque cumpririam o seu objetivo de criar um produto de culto? Vejamos The Neon Demon tem momentos de algum gozo, mas ficam-se por um mero aperitivo.

Um filme de horror no meio das cat walks de Los Angeles? E uma parábola sobre os ditames da beleza? A mescla de ambos surge logo no genérico em que as letras NWR servem como a griffe do criador. Na verdade, houve até quem comparasse TND, para usar também o acrónimo do filme, à comédia Zoolander, celebrando todos os excessos do millieu. Só que aqui em vez do humor kinky, temos o horror, igualmente kinky.

Elle Fanning (a menina que Sofia Coppola usou no ótimo Somewhere) empresta a sua pureza virginal à ninfeta Jenny polvilhada de purpurina que entra como um meteoro no mundo voraz da moda, onde as manequins de 20 anos já são muito passé. Só que de ingénua, no alto dos seus 16 aninhos acabados de fazer, apesar de assinar um papel em que garantia ter 19, troca o seu namorado (Karl Glusman, que entrou em Love, de Gaspar Noé) pela companhia doentia de uma maquilhadora (Jenna Malone, de Hunger Games) e de um par de néon beauties (Beta Heathcote) e Abbey Lee (que trabalhou com o Presidente do Júri em Mad Max: Estrada da Fúria).

 A dada altura, o terror é mesmo real, à medida que Jenny se deixa consumir pelo poder que acompanha a sua exposição mediática. O pedaço de terror mais eficaz é quando Keanu Reeves, num pequeníssimo papel parece recuperar o papel de Anthony Perkins no Bates Motel de Psico, uma referência presente neste filme. Isto antes de vermos Jenny Malone numa cena de sexo simulado com a mulher cadáver que estava a maquilhar. Mas este não será ainda o grande finale, esse sim, verdadeiramente de encher o olho…

Vejamos, em The Neon Demon Nicolas Winding Refn não precisa de mostrar que sabe usar os recrusos da arte cinematográfica ou de demonstrar sequer que esta familiarizado com os contornos dos géneros. Por aí, nada a dizer. De gosto menos duvidoso é essa mescla de permenente video clip em transe para gerar um projecto avant garde de perfil provocador. Digamos que sabe a pouco, porque The Neon Demon nunca abandona verdadeiramente o lado mainstream. Salvo, lá está, uma cena, a tal em que precisamos mesmo de ter os olhos bem abertos. Mas fica-se por aí. O que é pena.

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Sobre Paulo Portugal 722 artigos
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