Novembro 17, 2019
insider

Cannes: Jodie Foster is back!

“É uma honra regressar a Cannes 40 anos depois como realizadora”


Depois de Woody Allen, é a vez de Jodie Foster fazer parar a Avenida Croisette para a estreia mundial de Money Monster, o filme sobre os sobressaltos do mundo da alta finança que chega também às salas portuguesas. Na competição para a Palma de Ouro, o romeno Cristi Puiu deu-nos em Sieranevada uma nova lição de três horas do seu cinema orgânico, ao passo que o francês Alain Guiraudie pôs-nos à prova no jogo provocador ensaiado em Rester Vertical. A secção Un Certain Regard abriu com o ensaio político egípcio Eshtebak/Clash, sobre as incertezas instaladas no país após a remoção do poder do Presidente Mohamed Morsi, com o golpe de Estado em 2013.

Há muito mais escondido por detrás de Money Monster, do que um mero thriller sobre os altos e baixos do mundo financeiro, bem como os seus respetivos malabarismos. Um estado de coisas a que o público global não é alheio. Na conferência de imprensa que sucedeu a apresentação para imprensa, a realizadora Jofie Foster reconheceu que o filme tem muitas leituras, apesar de se tratar, como defendeu, de um filme de género para todo o público. O próprio espectro de um Donald Trump como Presidente chegou mesmo a ser associado. Mas, algo que George Clooney se apressou a dissipar como se de uma maldição se tratasse: Trump não vencerá!

No entanto, Clooney acabará por mostrar a sua veia de dançarino de rap no papel do apresentador Lee Gates, enquanto apresenta em estúdio um programa sensacionalista sobre as oscilações do mercado bolsista. Entretanto, na régie, uma diligente realizadora com o rosto de Julia Roberts vai-lhe passando dicas e tentando temperar a sua vontade de improviso. Pois terá sido mesmo um ‘improviso’ financeiro, um glitch (erro informático) que terá feito um jovem perder todas as suas economias baseando-se nos conselhos prestados por Gates e entrar em direto no estúdio armado e com um colete de explosivos.

Entre o thriller e o entretenimento mainstreamMoney Monster acaba por constituir um divertimento moderado, num curioso diálogo entre o ecrã de tv e o projetor de cinema. Pois é neste direto que entra pelas casas dentro que todos seguem um drama com a ameaça de eliminar o locutor de tv. Uma espécie de reality tv – na linha de EDtv ou mesmo Truman Show, dois filmes que exploraram este fenómeno – com uma dramatização em que se estreita (e muito) o espaço entre o ecrã de cinema e da tv, aparentemente aquele em que as pessoas mais parecem acreditar.

Jodie Foster não será estranha ao frenesim que se vive em Cannes. Ela que visitou esta prazenteira cidadezinha mediterrânea quando acompanhou Martin Scorsese, em 1976, com Taxi Driver. E quando questionada sobre o sentimento que tinha agora no seu regresso, a atriz realizadora de 54 anos, confessou que foi um momento extraordinário. Na altura tinha 12 anos e tudo era menos caótico. Foi a minha estreia como atriz. Por isso, é uma honra regressar a Cannes 40 anos depois como realizadora.

Na competição para a Palma de Ouro

 Entretanto, principiou já a corrida para a Palma de Ouro 69, com a apresentação de Sieranevada, onde o romeno Cristi Puiu se serve do mesmo formato (quase três horas) usado logo no seu primeiro filme Aurora, para nos dar o ambiente algo caótico de uma família durante as exéquias do falecido patriarca.

 Já o francês Alain Guiraudie propõe-nos um jogo curioso e provocatório em Rester Vertical, em que um cineasta à procura de inspiração vive as mais insólitas experiências que incluem ter um filho com uma pastora e acabar por fazer amor com o avô dele, o que acaba por provocar o título mais sensacionalista no jornal local.

A secção Un Certain Regard foi aberta com o filme egípcio Eshtebak/Clash, de Mohamed Diab, abordando o clima de incerteza e confusão provocado pelos tumultos após a deposição do Presidente Morsi, no golpe de estado de 2013. O filme bem-intencionado que se passa totalmente no interior de um camião prisão, acaba por deixar a descoberto as suas insuficiências e limitações num registo algo previsível.

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