Julho 12, 2020

Cannes: I, Daniel Blake, um drama com sorriso nos lábios

Foi há dois anos, durante as entrevistas de promoção do filme O Salão de Jimmy, que Ken Loach, de novo selecionado para a competição em Cannes, anunciava que se iria reformar. Confessou-o este ano, de novo em Cannes pois claro, que lhe bastou uma semana sem fazer nada para perceber que teria de regressar à ação. E que regresso. No mais puro cinema realista, na linha de O Meu Nome é Joe (1998) e Ladybird, Ladybird (1994), acompanhando a jornada de um homem em missão kafkiana contra as regrazinhas do burocrático e cego sistema de saúde britânico.

 Como encarar a deriva de um cardíaco válido – ainda que impossibilitado de trabalhar – em busca da sua pensão e uma mulher solteira com duas crianças, igualmente entrelaçada num sistema, que mal a deixa mascarar a sua profunda carência diante dos filhos. Lágrimas e suspiros? O octogenário realizador prefere o tradicional espírito afável britânico, aquele que tempera mágoas com um sorriso e uma chávena de chá.

Na berlinda, ainda que sem nunca ser citado, estará porventura o PM David Cameron, de orelhas a arder, com a prossecução da política que foi disfarçando as politicas sociais com medidas burocráticas. De resto, o filme principia com uma cena em off,ainda durante o genérico, em que Daniel (Dave Johns, uma verdadeira descoberta) responde às questões formais de uma impassível ‘profissional de saúde’ de Newcastle para apurar as condições de adesão ao programa de benefícios de saúde devido ao diagnosticado problema de coração que o proíbe de trabalhar. Se bem que certas perguntas procurem antes perceber, por exemplo, se Daniel consegue colocar um chapéu na cabeça.

Ao ser-lhe negado o benefício, não lhe resta candidatar-se a um programa de emprego, apesar de não poder trabalhar. Mas é o processo, dizem-lhe. Kafkiano, já o dissemos. Com questionários online, via telefone, salas de espera, com a agravante de ter de lidar, sem qualquer ajuda, com os novos desafios dos computadores.

Por mero acaso, Daniel conhece num serviço de apoio a desesperada mãe solteira Katie (Hayley Squires) e os seus dois filhos, acabada de chegar de Londres a Newcastle, onde iria receber um espaço para morar, depois de não poder suportar mais viver no quarto de uma pousada. Numa situação em que ela própria se revolta contra o sistema que acaba por se converter em amizade e mútua ajuda.

A escolha de Dave Johns, experiente em stand up commedy, revela-se acertada, desde logo a conferir ao filme o estilo ligeiro, mesmo quando trata do lado mais duro da vida. De forma a que não estamos preparados quando Katie cede à fome num banco alimentar, durante a cena mais tocante do festival de Cannes. Mas acaba por ser na tremenda verdade das pessoas, o tal realismo afável e nada fabricado, que mergulhamos no lado mais proletário deste filme assumido. Por isso estamos com Daniel Blake quando decide tomar uma decisão de deixar a sua marca no mundo.

É este registo de verdade (ainda que não verité), feito da simplicidade, presente nas pessoas comuns que nos comove e se torna grande cinema nas mãos desta equipa que funciona como uma verdadeira família há mais de uma dezena de filmes – o argumentista Paul Laverty, a produtora Rebecca O’Brien e diretor de fotografia Robbie Ryan. Pois é, nós somos  Daniel Blake!

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