Outubro 20, 2020

Ben Kingsley: “Shakesperae é o ‘patrão!’”

Nas entrevistas, Ben Kingsley está  sempre como peixe na água. É o seu meio. A atenção é  toda para ele e, ele, gosta. Alimenta-se dela. Meticuloso, elevado e ponderado representa sempre o seu papel, o de um dos actores britânicos mais disciplinados. Tal como ele consegue identificar o meio social de qualquer sotaque londrino, também é fácil de compreender que o seu é um sotaque elevado e aprimorado com o tempo. Krishna Pandit Bhanji nasceu no último dia do ano de 1943, na pequena cidade de Snainton, em Yorkshire, fruto da união entre um médico e uma actriz e modelo. No final dos anos 70 viria a ocidentalizar o nome quando já beneficiava de uma reputação como actor de teatro e televisão. Pouco depois espantaria o mundo numa verdadeira osmose com a personagem de Gandhi e ganhando o respectivo Óscar.Em invejável forma aos 67 anos, Sir Ben tem uma impressionante lista de projectos em diversas fases de produção, não só como actor, mas também como produtor. Desde logo o épico Taj, em que participa com a sua mulher, a brasileira Daniela Lavender, de 36 anos, no papel da princesa indiana a quem o imperador seu marido edifica o magnífico Taj Mahal para provar o seu eterno amor. Isto para além de produzir a mini-série O Primo Basílio, adaptando o romance de Eça de Queirós.

Em O Príncipe da Pérsia, dirigido pelo britânico Mike Newell, cabe a Kingsley o papel mais sério desta fita inspirada no famoso videojogo criado por Jordan Mechner e celebrada com o toque de Midas pela produção vistosa de Jerry Bruckheimer. Se, por um lado, Ben nos faculta a dimensão épica da narrativa, de Jake Gyllenhaal e Gemma Arterton temos o flirt, mas também as mais vistosas cenas de acção, com muito parkour à mistura. E assim nasce mais uma franchise? Assim o público responda.

Impecavelmente vestido de roupa de malha justa a acentuar a excelente forma física, com o crânio luzidio e pêra rala, Ben Kingsley apresenta-se sorridente e hirto à porta da suite do hotel Excelsior, em Londres. A hora é dele.

Sir Ben continua em grande forma física. Percebe-se que se preocupa com o seu bem-estar. Tem muito trabalho para manter a forma?

Obrigado… Bom, como tenho piscina em casa, costumo dar umas braçadas todos os dias. Faço também alguns pesos. Mas não sou nada obcecado com o ginásio.

É realmente vasta a lista de projectos cinematográficos em que deverá participar nos próximos tempos. Percebe-se que tem estado muito ocupado….

Tem razão, está mesmo muito cheia, pois para alem do trabalho de actor, estou também a produzir. E isso dá bastante trabalho. E ainda vou entrar em três dos quatro filmes que produzirei. Para além disso, participei em grandes projectos como Shutter Island e O Prince da Pérsia. Digamos que está tudo a correr muito bem.

Que experiência retira em particular de O Príncipe da Pérsia, este projecto filmado no escaldante deserto de Marrocos?

Sabe, eu tenho uma óptima relação com os realizadores. Há muitos realizadores que têm uma boa relação com os actores, ma seu sou o contrário. E consigo ter um bom raport, talvez porque esteja muito habituado a ensaios, pois sou um actor shakespereano. O Mike Newell percebeu isso depressa. O Nazin não é uma personagem tridimensional, ele está consumido com ambição e inveja do príncipe. Isso é um passaporte para as emoções.

Quais as personagens de Shakespeare que vê aí fundadas?

Vejo Cláudio, Ricardo III, que diz na tela: “porquê eu?”. E Hamlet, claro.

Percebe-se que gosta sempre de encontrar Shakespeare no seu trabalho.

Gosto sim senhor, porque ele é  o “patrão”. Se pudermos fundir as personagens de certeza que encontramos o nosso caminho. Por exemplo, no Sexy Beast fui o Iago, em Shutter Island seria o Próspero, de Tempestade. Há uma combinação de amor incondicional temperada pelo desejo de curar o seu paciente. É uma tarefa imensa.

E como foi essa experiência de trabalhar com o Martin Scorsese?

Estou quase a começar o meu novo filme com ele (The Invention of Hugo Cabret e será filmado em 3D, com Kinglsey no papel de Georges Meliès). Estou entusiasmado! Ele é um homem extraordinário. Faz filmes como amor, adora os actores. É um acto de amor que pode por vezes ser duro, mas não deixa de ser um acto de amor.

Já o ouvi dizer que gosta de trabalhar com actores jovens. É algo que se aplica a este projecto com o Jake Gyllenhaal?

Very much so. O Jake tem um sotaque londrino tão imaculado que quase lhe posso dizer que colégio frequentou e em que rua mora no noroeste de Londres. É um rapaz de classe média de Tufnell Park , em NW 5. Isto graças à Barbara a sua instrutora de voz. Ele tem uma interpretação muito confiante. O que eu acho dominante na prestação dele foi a forma como acreditou que o seu tio não o queria destruir. É que a homem que ele ama é aquele o quer destruir.

De certa forma, Shutter Island também não sabemos bem se a sua personagem é positiva ou um vilão. Também é ambivalente…

Mas o Dr. Cawley torna-se extremamente positivo, sobretudo quando temos um realizador que usa a câmara para o revelar essa personagem. Acho isso magia.

Como definiria o seu estilo?

Não defino. Mas nesse filme é  espécie de aprendizagem pela imobilidade. Deixe-me contar um exercício que fiz com alunos de representação nos Estados Unidos. Todos estavam na sala, menos um que se tinha atrasado. E eu sugeri-lhes que fizéssemos um acordo: “A próxima pessoa que entrar naquele porta será um tipo completamente louco”. E pouco depois lá entra o aluno que começa por justificar o atraso. Mas diante das nossas reacções, começa a ficar embaraçado. É que tudo estava pré-condicionado. Foi um exercício fascinante. No fundo, é a disciplina e a precisão, mas também a simplicidade. É isso que eu agradeço a Shakespeare e a outros.

É verdade que irá trabalhar em breve com a sua mulher (a brasileira Daniela Lavender)?

Sim, espero que sim. Não colaborei muito com ela quando estava a preparar o seu trabalho para a peça como Tatânia, na peça Um Sonho Numa Noite de Verão, mas lá foi ela, como se fosse uma criança a atravessar a sua pela primeira vez. A Daniela foi magnífica. Iremos, espero eu, trabalhar juntos, em três dos filmes que irei produzir.

Em Taj?…

Sim, em Taj, mas entrará também em O Primo Basílio, baseado na obra do português Eça do Queiroz.

Ah sim? Conhece o livro?

É um livro magnífico! Soberbo nas descrições burguesas E Daniela entrará ainda nua outra adaptação de Shakespeare, mas que ainda não está confirmado.

Uma pergunta matreira: será  que o seu português já evoluiu mais de que uma palavra?

Receio que não… Pois a Daniela fala um inglês imaculado. É claro que já fomos os dois ao Brasil, mas a família dela também fala bem inglês, por isso acho que o meu português não teve possibilidade de evoluir.

Como vê  a eleição do novo Primeiro Ministro britânico? Será seguramente um período importante para o seu país…

Sem dúvida. Curiosamente, como moro muito perto do David Cameron, quando fui votar os paparazzi pensavam que era ele no carro. Mas quando me viram disseram: “não é o Cameron, é aquele actor, o Ben”… Mas é uma eleição muito importante e é crucial para mostrar como nos revemos com a nossa cultura, a nossa língua e a responsabilidade com a comunidade internacional. Está muito a passar-se e estamos se dinheiro.

Tal como nós em Portugal… Acha que o Reino Unido poderá voltar a ter a mesma posição na Europa que tinha há alguns anos atrás?

Eu acho que terá de ter uma contribuição filosófica para o debate sobre o futuro do mundo, o poder militar, o dialogo entre a pobreza e a riqueza. Há muito para fazer e não pode ser ofuscado por uma mera e apetecível retórica e sound bytes baratos. Se voltar para Shakespeare e Churchil, óptimo.

Acha que a aliança com os Estados Unidos se irá fortalecer?

É uma aliança com o Barack Obama. E é uma aliança com uma América nascente que é fantástica. Ele tem muito para fazer. É fantástico o que ele tem feito e como o tem feito. É óptimo vê-lo assim seguro. E que assim fique.

Por falar em Shakespeare, como explica que as suas peças continuem a ser tão populares como este filme?

Houve um estudo recente conduzido pelo National Youth Theatre onde um grupo de miúdos que não tinham contacto com Shakespeare converteu esse estudo num momento apaixonante de evolução. O mesmo sucedeu recentemente com os meus filhos a interpretarem Shakespeare. Se o perdêssemos seria desastroso. E tornava-o obrigatório na escola. É muito poético, rítmico e poderoso.

Qual é a sua relação actual com a Índia e como encara o seu desenvolvimento actual?

Eu tenho uma relação muito sentimental com a Índia. Tenho uma enorme afecto com aquele gente. É uma economia muito pujante, mas também com muito a fazer. Não podem estar dois países separados.

Acha que o Sir Ben poderá ajudar nesse sentido?

Acho que já ajudei com Gandhi e tornei o mundo mais alerta a essa personagem, mas irei também fazer filmes que injectem algo da minha personalidade na cultura deles. É o que sucederá, espero, com Taj.

Paulo Portugal, em Londres.

(entrevista publicada no Jornal i) 

 

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