Outubro 31, 2020

Peter Jackson: “Interessava-me mostrar o que sucede depois da morte”

Na estreia da adaptação do livro homónimo de Alice Sebold, o realizador explicou os contornos deste filme onírico e dramático.

Depois da trilogia ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘King Kong’, envereda agora por uma história muito mais naturalista, ainda que tocada por alguma fantasia. Foi um desafio consciente que quis seguir?

Não tenho exatamente um plano para os filmes que poderei fazer. Tenho mais certezas sobre o que não quero fazer. E o que não quero fazer é repetir-me a mim próprio. Esse é o único plano que tenho.


Apesar de se tratar de um drama profundo, percebe-se que o filme poderia ter seguido um caminho diferente, mais brutal. Acaba por ter uma abordagem mais positiva. Foi essa a sua intenção desde o início?

O filme que quisemos fazer nunca foi sobre o homicídio, nunca quis filmar a cena de uma menina de 14 anos a ser morte a violada. Nem queria que o público tivesse de passar por isso. Para nós, o filme não era sobre isso. O que nos interessava mostrar era o que sucedia depois de morrermos, bem como o lado de thriller, em que Susie Salmon (Saoirse Ronan) fica num estado em que tenta resolver o que lhe sucedera e punir o criminoso.

Calculo que o tenha fascinado a possibilidade de adaptar a parte mais fantástico e onírica do filme?

Logo que lemos o livro – primeiro a Philippa Boyens (argumentista) , que adorou e o passou à Fran Walsh (argumentista e companheira de Jackson), e depois a mim – decidimos incluir logo no guião esse “mundo paralelo” da Susie.

Nesse sentido, optou até  por um caminho mais complicado…

Concordo que teria sido fácil concentrar-me em aspectos mais negativos, se tivesse escolhesse esse caminho. Durante a adaptação, quisemos equilibrar a narrativa, até porque possui elementos muito positivos. E um deles é que a morte é apenas uma alteração física e de que o nosso espírito continua a existir. Essa é uma mensagem em que eu próprio acredito. Sim, é verdade que a nossa adaptação procura centrar-se nas coisas mais positivas do livro.

No entanto, esteve sempre ciente de que iria sempre usar efeitos especiais…

Os efeitos especiais vieram mais tarde, mas a criação desse mundo aconteceu logo no guião. E com a premissa de que não era um mundo físico e real. Partimos da ideia de que o espírito dela abandona o corpo e passa a habitar um ambiente subconsciente de sonho. A partir do momento em que decidimos este local, tornou-se muito mais aliciante jogar com as metáforas dos sonhos para contar este thriller em que nada parece o que é. É aí que entram os efeitos especiais.


Estará  neste livro alguma experiência da autora?

Realmente, adorei o livro da Alice. Mas ela sempre negou que fosse autobiográfico. É verdade que ela teve alguma experiências que relatou no seu livro de memórias, mas esse é um livro diferente. O ‘Visto do Céu’ é pura ficção.

A Saoirse Ronan já tinha dado provas do seu talento e foi memso nomeada para um Óscar, mas continua a ser uma revelação. Como se deu este encontro?

Foi durante o período de audições para a escolha de atrizes para o papel de Susie, até porque se trata de uma personagem americana. Depois de entrevistar mais de uma vintena de actrizes achámos que poderíamos fazer ainda melhor. Era uma personagem muito importante. Entretanto, chegou-nos pelo correio um DVD enviado pelo pai da Saoirse com imagens captadas no quintal na Irlanda e com belas interpretações de cenas de Susie. Muito naturais e realistas. Desde logo percebemos que ela tinha realmente captado a alma da personagem e percebido o tom. Parámos as audições e pensámos que tínhamos encontrado a Susie. Pouco depois encontramo-nos em Londres. É fantástico trabalhar com a Saoirse porque tudo parece vir de um lugar natural. Não existe uma técnica que venha de uma escola. Nunca lhe pedir para fazer alguma cena que ela não tivesse executado com enorme naturalidade.

 

Saoirse Ronan

 

O Peter já  afirmou que não acredita em nenhuma religião. Mas em algum ponto durante a elaboração deste filme as suas convicções se alteraram?

Na verdade, não me vejo como uma pessoa religiosa, no sentido que não subscrevo com as religiões organizadas. A própria história das religiões é muito mais política e poder geográfico do que uma crença religiosa. Eu tenho duas ideias que sustento: a primeira é que cada um deve acreditar naquilo que entende e, nesse sentido, o nosso filme não se destina de modo nenhum a fazer qualquer tipo de juízo de valor às crenças religiosas de cada um. Para nós, o mundo intermédio de Susie é um estado psicológico onírico e não um ambiente religioso. Há um momento no final do filme, quando está naquele campo e conhece as outras vítimas, que vê aquela luz dourada que supostamente representa o céu. É nessa altura que pode tomar a decisão de ir para onde desejar. Por conseguinte, essa luz pode significar o que cada um desejar. A outra ideia é que acredito nos princípios morais de todas as religiões são até bastante semelhantes. E não, os meus sentimentos não se alteraram durante o filme.

É inesperado ver o nome do Brian Eno na participação da banda sonora… Qual foi a colaboração dele no produto final?

Sempre tinha pensado que a banda sonora do filme seria com temas desse período. Um pouco como faz o Martin Scorsese. A ideia não era ter um ‘score’, mas vários temas. A Fran Walsh, a minha companheira e sócia, adora esse período e esteve muito ligada a esse movimento musical e inclusive numa banda ‘punk’. E tratou de fazer uma compilação de temas que poderíamos usar. Entretanto, tínhamos também um ou dois temas do Brian Eno, o instrumental ‘The Big Ship’ e ‘Babies on Fire’. Durante o processo de obter as licenças destes temas, contactámos o Brian que ficou muito interessado no projeto. Entretanto leu o livro e pediu-nos para compor a banda sonora. Pensámos que poderia ser interessante sobretudo para as cenas surreais. Durante esse processo comunicámos apenas por vídeo chat, pois nós estávamos na Nova Zelândia e ele na Inglaterra. Ele tocava trechos no seu estúdio e nós dávamos algumas sugestões. E assim se foi fazendo esta colaboração durante três meses.

Apesar de se tratar de um filme totalmente diferentes dos anteriores, a participação de efeitos visuais na construção da narrativa continua a estar presente. Está  a ver-se fazer um filme sem efeitos visuais?

Os efeitos visuais podem ser facilmente confundidos como um género em si. Mas, para mim, são apenas uma ferramenta usada pelo realizador. Tal como o uso de uma grua, de uma montagem rápida. Os efeitos visuais são outra ferramenta. Seja eles realistas ou fantásticos. Depende da imaginação de cada um. A mim sempre me interessaram os filmes de escape. No fundo, experiências que ultrapassam um pouco a vida. Os efeitos especiais sempre foram úteis para ultrapassar essa realidade.

Como está  a andar o seu projeto do filme Tintim?

Está a andar bem. Sim, vou realizar o segundo filme. O Spielberg (‘Tintim e o Segredo do Licorne’) não pode ficar com tudo… (risos).

Já  sabe qual deles irá ser?

Ainda não. Vou ter de pensar nisso.

Mas é fã da banda desenhada?

Sim, completamente. Sou um grande fã.

PERFIL

O realizador neozelandês é  uma das figuras de proa do cinema fantástico mundial. Depois de nos dar um mundo novo com a multipremiada saga ‘O Senhor dos Anéis” e ‘King Kong’, regressa agora um tema mais naturalista. Entretanto, adaptou as duas partes do romance ‘O Hobbit’ que será realizado pelo mexicano Guillermo Del Toro, que também produz. Entretanto, assegura a produção de ‘As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne’, que será realizado por Steven Spielberg. Jackson realizará a segunda aventura.

(entrevista parcialmente publicada no Correio da Manhã)

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