Novembro 22, 2019
insider

Lars von Trier enfrenta a cura para a depressão

Foi a quente, após as malditas sessões em Cannes, onde o filme  foi pateado e aplaudido. Uma forma de terapia, talvez. O dinamarquês assume a depressão e as práticas “shamanistas”- “É o LSD sem LSD!”, diz. A verdade é que tirou de Charlotte Gainsbourg a sua melhor interpretação de sempre e o respetivo prémio no festival. Um fenómeno de culto, isso sim. 

O casal entrega-se totalmente à cena muito física de sexo. Na sala ao lado, o bebé, curioso, investiga. O calor aumenta e o bebé trepa à cadeira. Dá-se o orgasmo e o bebé tomba da janela. Corte! O genérico chama-lhe ‘Anticristo’. O que se segue será um calvário retirado de uma tela de Brueghel ou Bosch ou um lamento de Munch. As referências são dele, mas revêem-se no filme. Atravessá-lo significa acompanhar o calvário e a purga interior. Sim, há imagens canalhas, de virar a cara. Mas também a mais pura emoção de ver um cinema que nos move e comove. Odeia-se ou entranha-se. Não há meias tintas.

Tinha-me preparado para a entrevista mais difícil, pois a fama de realizador duro com o entrevistador precedia-o. Puro engano. Lars parecia um cordeiro envergonhado após a valente depressão. E a mãozinha ainda tremia. O que vale é que disse tudo. Pelo menos.

O Lars referiu que a intenção de fazer este filme surgiu após um período de depressão. Qual a razão de colocar essa depressão no papel de uma mulher, a personagem da Charlotte Gainsbourg?

Sim, isso é verdade. Mas acho que fiz sempre isso em todas as minhas personagens femininas. Nos meus filmes, os homens tendem a ser estúpidos e dominadores (pausa)… Para mim, o percurso dela foi natural. E o retiro dele (a personagem de Willem Dafoe) foi algo que fiz há alguns anos.

O filme é bastante forte e tem algumas cenas particularmente chocantes. Acha que esta será a versão que veremos no nosso país?

Não lhe posso prometer isso. O que está no meu contrato é que se houve censura terá de ser mencionada. No entanto, muitos mais países do que supunha irão mostrar a versão original.

Estava à espera que o título ‘Anticristo’ tivesse um fundo mais religioso, mas não é isso que sucede…

Acho que gostei do título (risos)… Tive a oportunidade de fazer algumas viagens “shamanísticas” que me deram os animais que vemos e algumas imagens estranhas…

…disse viagens “shamanísticas”?

Sim, é algo que se fazia em comunidades hippies, mas é também uma tradição em algumas comunidades primitivas. Existe um shaman, uma espécie de médico espiritual. Supostamente, viaja ao ritmo de um tambor a um universo paralelo onde se encontra com as profecias. O curioso é que se trata sempre do mesmo ritmo do tambor. Eu fiz essas viagens algumas vezes em transe. É extremamente divertido. É uma espécie de LSD, mas sem LSD. É muito esquisito. E legal.

Porque se sente mais à vontade com personagens femininas?

Digamos que é mais fácil parodiar o sexo oposto. Por outro lado, sempre me senti mais feminino, no sentido de que era muito sensível. Não sei bem porquê… Talvez porque o Carl Dreyer fez muitos filmes com personagens femininas. Comigo funciona bem. Normalmente, temos uma boa relação com as actrizes.

Durante este processo criativo que tipo de obstáculos enfrentou?

Foi um momento pouco típico, pois senti-me sem poder. Estava presente apenas de uma forma física. Em circunstâncias normais teria construído uma plataforma para o filme. Desta vez não aconteceu. Foi bastante duro e houve muitas coisas que não consegui fazer. Por exemplo, não consegui segurar a câmara, tremia demasiado. Foi um pouco humilhante.

Estava com uma depressão, mas também doente do ponto de vista físico…

Sim, neste tipo de depressão estamos mesmo doentes. Quando olho para aquilo que escrevi na altura nem consigo decifrar.

Disse que os homens são normalmente mais agressivos, mas neste caso, é a Charlotte quem é mais violenta. Concorda?

O que é que posso fazer, gosto dela!… (risos) Acho que se percebe que, em tempo, maltratou a criança. Muitas mulheres não conseguem ser mães. Mas é verdade que puxei a Charlotte a fazer um papel mais duro. Acho que a culpa é muito importante na maternidade. Há mulheres que já não querem ter sexo com os maridos, pois a relação com os filhos tornou-se mais importante. A maternidade, o sexo e a morte são temas que andam aqui de mãos dadas. Talvez por isso, acho que a consigo compreender.

A própria Charlotte disse que o Lars conseguiu que ela não se impusesse a qualquer limite. Como conseguiu que fizesse essas cenas tão explícitas?

E ela até é bastante tímida. Eu cheguei a dizer-lhe: “como é que consegues masturbar-te na floresta sendo tão tímida”, ao que ela me respondeu: “isso querias tu saber!” (risos)

Mas como foi que a sugestionou a esse ponto?

Acho que a apoiei. As mulheres têm algo biológico que as faz manterem-se imutáveis nas sua decisões. Desde cedo, ela decidiu que queria fazer o filme. Acreditava no projecto e em mim. Por isso, avançou. Trabalhar com actores masculinos é mais difícil, porque haverá sempre uma necessidade de controlar. A minha experiência com actrizes é que confiam em mim.

Ela disse que você a colocava um pedestal… É verdade?

Sendo eu próprio uma mulher, tenho de dizer que sim… (risos) A sério, não sei o que foi. Apenas tento sobreviver.

Quer falar um pouco das suas influências visuais para o filme?

É verdade que me inspiro em várias coisas e na maior parte dos casos, não sei dizer onde as roubei. É claro que o Edward Munch faz parte da minha educação. Mas também o Brueghel, o Bosch… Não podemos fazer nada que não tenha sido inventado.

E parece-me que tem também algumas influências de contos de fadas. É algo que gosta?

Detesto contos de fadas! Na Dinamarca, estamos sempre a ouvir falar no Hans Christian Andersen. Ele era um idiota tão vaidoso, parece que queria conhecer o rei e a rainha e viver no campo. Mas a verdade é que passava os dia a masturbar-se… (risos)

(gargalhadas!!!)
Aliás, essa é talvez a única coisa que respeite nele. Acredito que muitos verão nele uma série de outras qualidades…

Como reage ao facto de muita gente ter abandonado a sala e rir-se no meio da projecção do seu filme?

Já assisti a projecções de filmes de terror em que toda a gente se ri. Isso é normal e não quer dizer que alguém se sinta ofendido pelo filme. Mas há outras formas de riso que se trona mais hostil. Sobretudo de pessoas que decidiram odiar o filme desde o início. De certa forma, isso abala-me. Projectar um filme é como convidar alguém a nossa casa. Mas eu já fui mais duro. Por exemplo, quando mostrei aqui em Cannes O Elemento do Crime, em que três quartos das pessoas abandonaram a sala. Nada disso me afectou.

Isso afecta-o agora de uma forma negativa?

Não, por princípio, acho que um filme pode e deve dividir as pessoas. Mas como indivíduo não posso deixar de me afectar um pouco.

De certa forma deseja ser amado pelo público, é isso?

Sim, é isso. E é uma fraqueza. Mas não tão grande que possa influenciar o filme.

Publicado na revista GQ, Janeiro/Fevereiro 

 

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